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Pipa ou papagaio

Por Gilson Edmar, médico e vice-reitor da UFPE
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O mês de agosto traz, para todos os recifenses, boas recordações da juventude. Os nossos atuais jovens também participam desses momentos agradáveis. O retorno às aulas é um fato marcante na vida de todos os estudantes, não importa quando isso ocorre. Encontrar os antigos colegas e conhecer os novos é sempre motivo de expectativas. Com os antigos, a troca de informações sobre as férias, onde são relatadas as viagens e as brincadeiras, além de programarem ações e estudos para os próximos meses. Os novos colegas são progressivamente introduzidos na turma, participando cada vez mais das atividades escolares e recreativas.

Mas, o mês de agosto é também para o Recife e os recifenses o período onde os ventos são mais fortes, transformando a brisa do mar, característica da cidade, em verdadeiras ventanias. Esses ventos, pelo fato de suceder a época chuvosa, mudando o clima da cidade, trazem para uns uma sensação desconfortável de “frio” e para outros uma agradável temperatura amena, quebrando a monotonia do calor tropical.

São esses ventos que permitem uma das nossas brincadeiras sazonais: empinar pipa ou papagaio, como outrora era chamado. Esse brinquedo, ora sofisticado para venda no comércio, ora simples, de fabricação caseira. Com estas alternativas, todas as crianças, de todas as classes sociais podiam brincar de empiná-los.

A pipa ou papagaio tem formas diversas, sempre de papel colorido, cujos acessórios principais são: o “rabo”, de papel ou tecido, que parte dele, de comprimento  dependente  do tamanho e peso do papagaio e a linha, que é amarrada no seu centro e enrolada em um carretel, que fica na mão de quem vai empinar. Devemos abominar a triste idéia de por cerol (vidro ralado e cola) na linha para cortar outros papagaios, mas que provoca acidentes graves em pessoas, podendo chegar até a morte. O papagaio é para se brincar e nunca para agredir. No máximo, derrubávamos o papagaio dos outros, com “gilete” na ponta do rabo.

As pipas mais elaboradas, vendidas no comércio ou por ambulantes, têm formas de pássaros, de avião ou o escudo e as cores de um time de futebol, sendo geralmente maiores e mais coloridas que as artesanais. Não importa o tipo, todas elas levam para as alturas a alegria das crianças.
Empina-se papagaio no Brasil e em vários os países. As pipas mais sofisticadas são as japonesas, representando as figuras do folclore nipônico, com leões, tigres, samurais, entre outros. O papagaio também já foi motivo de tema na literatura, sendo mais recentemente publicado um livro “O caçador de pipas”, de Khaled Hosseini, cuja história se passa no Afeganistão.

O meu pai, Júlio, outrora preparava, a cada ano, os meus papagaios e os dos primos e amigos. Com o passar dos anos vieram os netos, que também passaram a usufruir dos seus papagaios. Ele saia feliz para comprar papel seda, cola, varetas flexíveis e linha de carretel. As varetas eram assim colocadas: uma na vertical e duas na horizontal (a maior no meio e a menor na parte superior) ficando o papagaio em forma triangular ou retangular. Colocávamos uma pequena vareta no buraco do carretel para a linha ser enrolada de modo alternado e íamos para a praia ou para os descampados da Ilha do Leite, para receber os ventos mais fortes e empinar os nossos papagaios.

Mesmo com toda a tecnologia moderna e os jogos eletrônicos disponíveis, sugiro que as nossas crianças e os nossos jovens experimentem a felicidade de empinar um papagaio ou uma pipa, como queiram chamar.

Publicado na edição do dia 24 de agosto do Jornal do Commercio
Data da última modificação: 27/10/2016, 14:26