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O apagão da memória

Por Gilson Edmar - vice-reitor da UFPE
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O dia 21 de setembro de cada ano é destinado para ações de orientação sobre as demências e para que a sociedade possa participar do Dia Nacional da Doença de Alzheimer, organizado pela Academia Brasileira de Neurologia, a fim de difundir os conhecimentos e desmistificar a doença.

A evolução científica e tecnológica trouxe, como um dos seus resultados, a possibilidade de melhoria na qualidade de vida das pessoas e, em consequência, uma maior longevidade, observada pelo número crescente de idosos em todo o mundo. A população de homens e mulheres com mais de 65 anos é a que mais cresce no Brasil e em outros países. Se isto é benéfico, nos aspectos gerais, por outro lado proporciona o aparecimento, cada vez mais frequente, de doenças degenerativas do sistema nervoso, mais comuns nesta faixa etária.

Estes quadros neuropsiquiátricos se apresentam com as seguintes manifestações: falta de memória para acontecimentos recentes, dificuldade para acompanhar conversações ou pensamentos complexos, incapacidade de elaborar estratégicas para resolver problemas, dificuldade para dirigir automóvel e encontrar caminhos conhecidos, dificuldade para encontrar palavras que exprimam ideias ou sentimentos pessoais, irritabilidade, suspeição injustificada, agressividade, passividade, interpretações erradas de estímulos visuais ou auditivos, tendência ao isolamento. Pessoas que apresentam estes sintomas devem ser acompanhadas, porque uma parcela delas evolui para demência que é uma terminologia genérica e que serve para descrever estes distúrbios da memória e do comportamento. Entretanto, a perda de memória não tem o mesmo significado de um simples esquecimento. Podemos até esquecer o nome de um filme que assistimos na véspera, mas a pessoa com demência não sabe se viu o filme ou se foi ao cinema.

Entre os quadros demenciais, a doença de Alzheimer é encontrada em mais de 50% dos casos, por isso é a mais conhecida entre a população leiga. Porém existem outros tipos de demência, com nuances clínicas e patológicas que se diferenciam, possibilitando diagnósticos diferenciais. Entre elas, a demência vascular, que os antigos diziam que o paciente estava caducando. Temos ainda uma pequena parcela das demências que são reversíveis, ou seja, combatida a causa, poderá o paciente retornar ao seu estado normal anterior. Daí a importância de se procurar um médico ou serviço médico especializado logo aos primeiros sintomas, especialmente as pessoas com história familiar, para que se possa fazer um diagnóstico preciso e ser instituído um tratamento adequado e precoce. Esta orientação visa retardar a evolução da doença, mantendo o paciente útil à sociedade.

A doença de Alzheimer tem uma evolução lenta e progressiva. O quadro clínico vai desde uma forma inicial, caracterizada por alteração da memória, da personalidade e nas habilidades visuais e espaciais, evoluindo para um estágio moderado, onde predomina, além dos sintomas referidos, dificuldade para falar, para realizar tarefas simples e coordenar movimentos, além de agitação e insônia. Nas formas graves, ocorre resistência à execução das tarefas diárias, incontinência urinária e fecal, dificuldade para se alimentar, déficit motor progressivo (que o leva a permanecer no leito) e infecções intercorrentes.

Atualmente, com os meios disponíveis, é possível tanto um diagnóstico precoce e fidedigno, como o desenvolvimento de medicamentos cada vez mais eficazes.Além do tratamento medicamentoso é imprescindível, a terapia cognitiva e as demais técnicas aplicadas pelas equipes de terapia ocupacional, que traz benefícios clínicos imensuráveis a estes pacientes, tornando-se indispensáveis para uma boa evolução da doença.

Aliado ao acompanhamento do profissional da saúde é imprescindível a atuação de um cuidador, que poderá ser um membro da família ou não. Esta pessoa deve ser treinada para estar junto do paciente, especialmente nos quadros moderados e avançados, mantendo um relacionamento afetivo, tão necessário na evolução da doença.

Demência não significa o fim. Segundo a Associação Brasileira de Alzheimer (www.abras.org.br), muitas pessoas com demência podem ainda desempenhar um papel ativo nas suas famílias e nas suas vidas, sendo ainda capazes de dar e receber afeição e amor. "Não há tempo a perder".

Publicado na edição de 28.09.2010 do Jornal do Commercio
Data da última modificação: 27/10/2016, 14:58