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Poesia de Abidoral Jamacaru é veículo de informação e memórias do Cariri cearense

Pesquisa aponta que poética do artista é veículo de informações que marcam um tempo e um lugar próprios daquela região

Por Inácio Lins                                                                                       

Na dissertação “Abidoral Jamacaru: a poesia como elemento de memória na região do Cariri Cearense”, defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UFPE (PPGCI)Ermeson Nathan Pereira Alvescontextualiza o artista e militante do movimento de contracultura no Cariri, no período de 1970, como um veículo de informação e memória daquela época e região. “A partir da poética de Abidoral, como artefato cultural e através do conceito de cultura na perspectiva antropológica, podemos perceber a poesia enquanto objeto cultural e memorialístico criado de acordo com as transformações da sociedade”, afirma ou autor.

Natural da cidade de Crato, no sertão cearense e nascido em 28 de novembro de 1948, o cantor e compositor Abidoral Jamacaru é um dos mais reconhecidos representantes da música popular produzida na região do Cariri. Composições suas traduzem a participação dos jovens caririenses nos festivais da canção realizados na cidade de Crato, na qual a obra começa a ter visibilidade regional. O estudo acadêmico em torno da produção do artista cearense, orientado pela professora Elizabeth Galvão Coutinho Correia, destaca os objetos e relevância deles para a conservação da memória daquela região nordestina.

Para produzir a dissertação, Ermeson Nathan adotou como metodologia a análise temática de conteúdo, permitindo identificar os núcleos de sentido do texto e a história oral, como procedimentos de interpretação e coleta de dados. Na leitura das 39 poesias de Jamacaru, identificou-se que, embora apenas cinco apontem as características da região do Cariri cearense, é suficiente para que toda a produção seja reconhecida como importante instrumento de memória das circunstâncias que retrata. Antes de interpretar as amostras, a leitura e a releitura do material permitiram criar subcategorias, as quais as poesias pudessem ser organizadas conforme os aspectos que abordava, predominantemente. “A categoria Aspectos Regionais foi criada na perspectiva de definir a amostra para análise e, posteriormente, refinar a temática investigada neste estudo por meio das subcategorias representativas da região do Cariri cearense”, afirma Ermeson.

TEORIA | Segundo o autor, uma abordagem teórica contribuiu na perspectiva de compreender a poesia como representação do conhecimento a partir dos mapas conceituais, estabelecendo-se, então, as diferenças teóricas e práticas da organização e representação da informação e da organização e representação do conhecimento. Como trabalho da área acadêmica da Ciência da Informação, a poesia analisada foi debatida no âmbito da representação do conhecimento, identificando, a partir de períodos passados (as artes pictóricas, a oralidade e a escrita) como tipos de representações expressas e registradas num determinado suporte que permite a sua salvaguarda e posterior recuperação.

Destacando que a Ciência da Informação trabalha com os processos informacionais, mas também com os documentos de memória, Ermeson relata que, ao começar a estudar memória e o conceito de informação na área, logo identificou a poesia como um suporte de informação e memória, já que trazia significados. “Mesmo a Teoria da Literatura não entendendo a poesia como informação nem memória, a Ciência da Informação me permitiu trabalhar nesse sentido, claro que com procedimentos metodológicos que interligam o todo à teoria com a prática da análise das poesias”, explica. 

O estudo identificou que o poeta cearense representa o Cariri sob a vertente política, através da ativista Bárbara de Alencar, e com temas da natureza, abrangendo a flora e a fauna. A poesia intitulada Bárbara de Alencar é, segundo o pesquisador, a mais representativa no que diz questão ao tema do seu estudo. A musa inspiradora dessa poesia foi a primeira mulher presa por se envolver com política no Cariri, junto com seus filhos Tristão Gonçalves e José Martiniano de Alencar. Compreendendo Bárbara de Alencar como uma ativista feminina que revolucionou junto com as ideologias republicanas de Pernambuco, lá no Seminário de Olinda. Apesar de alguns autores fazerem críticas sobre Bárbara de Alencar ser uma mulher que foi dona de terras no Cariri e era amiga de coronéis.

PROVOCAÇÕES | Para Ermeson, um trabalho acadêmico da área da Ciência da Informação que traga como proposta uma análise temática da produção poética sugere certa “desestrutura”. “Muita gente me perguntava como eu trabalhava poesia na Ciência da Informação”, relata. Segundo o autor, o resultado alcançado aponta para essa possibilidade e, como reforço à sua compreensão, registrou como epígrafe do trabalho trecho de música do cantor Belchior, também cearense: "Eu quero é que esse canto torto feito faca corte a carne de vocês”. Para ele, a proposta da pesquisa era essa: “Desconstruir; não apenas na área da Ciência da Informação, mas também em grande parte do pensamento elitista da universidade, pois o poeta popular tem seu valor e merece ser estudado; Jamacaru tem o mesmo valor que Bertolt Brecht, Vinícius de Morais, Cora Coralina, pois ele traz em si, e nos seus escritos, aspectos da sua terra, o Cariri”, reflete o autor.

Bárbara de Alencar

Toda luta tem perigo e inspira um afã
Uma vida tem mistério canta a cor de uma romã
Era Bárbara, dona Bárbara
Alma linda no perdão
Muito Bárbara mente bárbara
Te aceno na canção
Bárbara mente bárbara
Te aceno na canção

Quero naufragar na fonte
Mãe de luz liberdade
Esperança de um povo
Reluzida em Tristão

Era Bárbara, dona Bárbara
Alma linda no perdão
Muito Bárbara mente bárbara
Te aceno na canção
Bárbara mente bárbara
Te aceno na canção

Na Caiçara tu brotaste
Vale dos Índios Açu
No Pau Seco floreceste
Perfumando o Vale Sul
Hoje flora Sucupira, Oiticica, Mororó
Filhos de tuas palavras.

Mais informações

Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UFPE
(81) 2126.7728 | 7727 
ppgci@ufpe.br

Ermeson Nathan Pereira Alves
ermesonathan@hotmail.com 

Data da última modificação: 10/04/2019, 15:32