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Participação de telespectadores em programas esportivos é mediada por filtros

Enquanto comunicam proximidade, os veículos de TV procuram conservar as distâncias e o controle sobre a situação

Por Gabriela Lázaro
                                                                            
Com a popularização da internet, é notável o quanto os programas de televisão estão sempre buscando formas de envolver o público em suas programações ao vivo. No caso dos programas esportivos não é diferente. A dissertação de mestrado “Vem com a gente na hashtag: por um modelo da participação do espectador em programas televisivos sobre futebol” observou que a TV caminha para a consolidação de um modelo interpelativo, cujo propósito é mobilizar o público e fazer dele colaborador (desde que nos termos convenientes). Além disso, ela intensifica o valor de informalidade, o tom de conversa e o efeito de abertura, subvertendo paradigmas clássicos que prescreviam a sobriedade, segundo o autor do estudo, Pedro Paula de Oliveira Vasconcelos.

Orientada pela professora Yvana Carla Fechine de Brito, a pesquisa, que foi apresentada no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE, em fevereiro deste ano, identificou que, através da participação do espectador, as emissoras esperam que o telespectador possa atuar na função de comentarista, de repórter e de entrevistador. Entretanto, “enquanto comunicam proximidade, os veículos de TV procuram conservar as distâncias e o controle sobre a situação enunciativa; os sujeitos acabam submetidos a algoritmos de comportamento dificilmente modificáveis”, salienta Pedro. 

Os programas televisivos buscam esta aproximação do público, porém essa participação é mediada pelos algoritmos da empresa. O pesquisador afirma que é impossível subverter essa lógica dos algoritmos e “embora a potência do sujeito não seja nula, ela tem um limite claro, o que só reforça a ideia de um arranjo que se movimenta entre a programação e a manipulação ou a partir da conjugação de regimes”.

Por ser “paixão nacional”, o futebol é um tema muito popular entre os brasileiros e que consegue atrair bastante engajamento dos telespectadores, já que mexe com os sentimentos e aflora as emoções de quem assiste. O pesquisador comenta que “o incentivo à colaboração do público é um dos traços mais relevantes dos atuais veículos de mídia, que precisam se adaptar a um cenário de convergência dos meios e a novos hábitos de consumo”. 

METODOLOGIA | Durante os meses de março e abril de 2018, foram observados 32 produtos distintos e cada produto teve três edições examinadas, o que totaliza em uma análise de 96 edições distintas. Os produtos observados foram de canais exclusivamente esportivos com transmissão na televisão fechada, foram eles: BandSports, ESPN Brasil, Esporte Interativo, Fox Sports e SporTV. Essa observação serviu para identificar as estratégias de participação e como elas são parecidas. 

Apesar da observação de muitos programas, Pedro catalogou que há mais semelhanças do que diferenças entre os programas. São todos ao vivo, giram em torno dos fatos esportivos instantâneos, as pautas se concentram no esporte de alto rendimento e aos torneios prestigiados, a maioria dos programas são apresentados em formato de mesa-redonda ou em formato híbrido - em que os apresentadores têm como função principal chamar os repórteres e divulgar as novas informações.

Os programas apresentam, também segundo o estudo, um percurso de participação muito parecido: (1) convocação dos telespectadores; (2) anúncio de canais de participação (Facebook, Twitter e outras redes sociais); (3) comunicação de regras procedimentais e o que precisa ser feito para sua participação aparecer no programa; (4) atuação do público pelas redes sociais e (5) uso de conteúdos produzidos pelo público no programa televisivo.

A dissertação aponta, ainda, que a participação do telespectador parece ser um caminho irreversível e que precisa se renovar constantemente nos programas televisivos. No segmento dos esportes, Pedro pontua que “cada nova atração que surge já traz em sua identidade algum compromisso com a audiência”. Ele também aborda a importância de entender como as emissoras estão lidando com esse movimento participativo: “A questão é compreender até onde as emissoras televisivas estão dispostas a ir, ou seja, qual a margem de controle a que aceitam abdicar nesse processo”.
 
Mais informações

Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCom)
(81) 2126.8960
ppgcomufpe@yahoo.com.br

Pedro Paula de Oliveira Vasconcelos
pedrovasconcelos2309@gmail.com

Data da última modificação: 19/06/2019, 14:41