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Homofobia é potencializada em comentários a postagem no Facebook

Psicólogo classifica expressões identificadas na web entre a flagrante, a sutil e a não preconceituosa

Por Larissa Valentim

A homofobia é uma manifestação complexa e que está longe de ser erradicada. Com a explosão da internet, onde sujeitos “comuns” ganham voz, ela é potencializada e mais perceptível. Na dissertação “Redes de Ódio: um estudo sobre homofobia no Facebook”, Lawerton Braga da Silva analisa as diferentes formas de expressão da homofobia numa publicação via Facebook da página “Quebrando o Tabu”, onde o médico Dráuzio Varella fala a respeito da homossexualidade. A partir da análise dos comentários, o autor observou e classificou como eixos temáticos dentro dos comentários: Classe 1 – Respeito (40%); Classe 2 – Debate Político-Ideológico (22,1%); Classe 3 – Influência da Homossexualidade para as Crianças (12,9%); Classe 4 – Acusação aos Homossexuais de Deturpação da Igreja (25%).

Analisando mais profundamente as opiniões dos internautas, Lawerton identificou como expressões em relação à homofobia as que ele classifica como flagrante, sutil e não preconceituosa. A expressão flagrante se refere aos comentários ofensivos explícitos que “não mascaram o seu conteúdo e, na maioria das vezes, estão ancorados a uma lógica religiosa”. A sutil apresentou “novas expressões de preconceito, que são veladas e justificadas, sobretudo, na ameaça aos valores da família e da igreja. E a expressão não preconceituosa foi observada por meio da defesa explícita dos homossexuais e da homossexualidade, baseada num discurso de igualdade.

Segundo o autor, “a pesquisa identificou diferentes expressões homofóbicas nos comentários, além de discursos justificadores para os posicionamentos preconceituosos, ancorados em explicações distintas para a homossexualidade”. A dissertação, defendida no Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGPsi) da UFPE, define a internet como um objeto de pesquisa, já que ela “permite identificar as diferentes interações sociais já existentes no plano off-line”. "O trabalho tenciona a relação entre homofobia e internet e reflete se a rede pode ser considerada um espaço de potencialização das tensões grupais ou se é nela onde essas tensões ganham maior ênfase", explica Lawerton. 

O trabalho, orientado pela professora Renata Aléssio, também aponta a relação entre as relações intergrupais e a homofobia, como as relações de comunicação social constroem um pensamento comum a respeito da homossexualidade. “As relações intergrupais se constituíram como processos norteadores das discussões, tendo em vista que a formação de grupos e os processos de categorização social se constituem como a forma pelos quais os grupos sociais se identificam e, consequentemente, expressam posicionamentos contrários aos homossexuais”, afirma o mestre em Psicologia. 

A dissertação também comenta como as representações sociais sobre a natureza da homossexualidade, partilhadas por pessoas heterossexuais, podem estar na base da homofobia expressa nos ambientes de trabalho. “A homofobia é um fenômeno relevante que está presente nas relações sociais, por meio de crenças, emoções, ideologias e posicionamentos. É um tema que gera debate em diferentes esferas, criando e recriando o conhecimento através das redes sociais, por exemplo”, diz Lawerton da Silva. Por não existirem políticas públicas de combate a esses crimes, como banco de dados ou relatórios oficiais, é ainda mais complexo combater essas formas de agressão – principalmente em redes sociais, analisa.

METODOLOGIA | A metodologia utilizada neste trabalho foi da pesquisa qualitativa, realizada por meio de uma imersão dentro de uma comunidade no Facebook e de uma análise de conteúdo informatizada. A escolha desta página se deu pelo fato de ser um perfil com 7.923.633 inscritos, criada em 2011 para divulgar um filme de mesmo nome que trata da guerra às drogas. Para a análise dos dados, o autor utilizou o software Iramuteq (Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires), um programa gratuito. Com essa ferramenta foi possível fazer análises estatísticas sobre corpus textuais e, também, de tabelas. “A análise textual trata materiais verbais que são transcritos, ou seja, textos, entrevistas e, nesse caso, comentários disponíveis na internet”, explica o pesquisador.

Mais informações

Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGPsi)
(81) 2126.8271
secretariappgpsi@gmail.com

Lawerton Braga da Silva
lawertonbraga@hotmail.com

Data da última modificação: 29/05/2019, 16:12