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Falta de transporte e de acessibilidade afetam saúde bucal de crianças e adolescentes com PC

Estudo aponta que a principal fonte de cuidados é representada pela mãe, que responde por 87,2% dos casos

Por Maik Santos

Muitas crianças e adolescentes com diferentes níveis de paralisia cerebral (PC) apresentam dificuldades com os cuidados em saúde bucal. De acordo com pais e cuidadores, muitos fatores estão envolvidos, inclusive dificuldades de transporte e de acessibilidade ao cirurgião-dentista, principalmente entre os indivíduos com PC grave. A constatação é a principal resposta encontrada pela pesquisadora Elizabeth Louisy Marques Soares da Silva, em seu mestrado desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e do Adolescente da UFPE. “A pesquisa demonstrou associações entre a gravidade da paralisia cerebral e o uso de anticonvulsivantes, além de apontar maiores dificuldades quanto à acessibilidade e ao transporte, uma maior ocorrência de fechamento bucal durante a prática de higiene bucal e com o tipo líquido/pastoso de consistência alimentar”, atesta a autora.

Para a dissertação “Caracterização dos cuidados em saúde bucal a crianças e adolescentes com paralisia cerebral: visão dos pais e cuidadores”, realizada sob orientação da professora Marília de Carvalho Lima, foram entrevistados pais/cuidadores de 94 crianças e adolescentes com diagnóstico de PC na faixa etária dos 5 aos 18 anos de idade. A pesquisa foi realizada entre janeiro e agosto de 2017 com pacientes do setor de Fisioterapia da Fundação Giácomo e Lúcia Perrone, da Pepita Duran – Clínica e Multisserviço Home Care e dos Ambulatórios de Reabilitação e de Gastroenterologia Pediátrica do Hospital das Clínicas da UFPE.

Por meio da investigação, a pesquisadora Elizabeth identificou que o principal cuidador é representado pela mãe (87,2% dos casos). Em relação ao grau de comprometimento motor das crianças/adolescentes, avaliado com base no Gross Motor Function Classification System (GMFCS), 31 (33%) delas apresentaram comprometimento leve/moderado (níveis I, II e III) e 63 (67%), comprometimento grave (níveis IV e V). De acordo com o que lhe foi relatado, a pesquisadora identificou entre as crianças/adolescentes com PC mais grave um percentual maior de higiene bucal realizada pelo cuidador, sem auxílio do paciente.

Muitos dos responsáveis apontaram que, no âmbito familiar, as dificuldades são em relação à realização da higiene bucal, principalmente por conta da limitação da abertura de boca. “A dificuldade de realizá-la acontece porque o paciente não coopera/morde a escova, devendo isso ao fato de que os indivíduos com PC possuem reflexo de mordida, um reflexo primitivo infantil, que promove elevação da mandíbula e, consequentemente, fechamento bucal”, explica Elizabeth. Por conta desse comportamento, segundo o estudo, é comum que muitos pais utilizem apenas gaze/tecido umedecido para higienizar a cavidade bucal, além da ausência do uso do fio dental.

No entanto, salienta a autora, a higiene sem a escovação (uso apenas de gaze/tecido umedecido) deve ser usada apenas de modo coadjuvante na limpeza da boca dos indivíduos com paralisia cerebral: na condição de retirar o excesso de creme dental da cavidade bucal após a escovação dental. “As escovas dentais também podem sofrer uma série de adaptações para atender aos indivíduos especiais, além do emprego de abridores de boca para uso domiciliar, tendo indicação para indivíduos menos colaboradores que possuam distúrbios neuropsicomotores”, sugere.

ALERTA | Além disso, a pesquisadora alerta que o uso prolongado de medicações como os anticonvulsivantes é outro fator relevante para a saúde bucal desses indivíduos. “Muitos desses fármacos possuem elevado potencial cariogênico devido à quantidade de açúcar, a fim de serem mais palatáveis, principalmente pelas crianças; reduzem o fluxo salivar e acarretam hiperplasia gengival, contribuindo para o aumento do risco de desenvolvimento de doenças bucais”, explica. Com isso, salienta a importância de orientar os cuidadores quanto às alterações bucais decorrentes desses medicamentos, além da prática correta da higiene bucal após administração destes.

Em seus depoimentos, muitas das mães/cuidadoras também apontaram as dificuldades quanto ao acesso aos cuidados odontológicos. Houve uma proporção significantemente maior de responsáveis que relataram dificuldade quanto ao transporte e à acessibilidade ao serviço odontológico entre as crianças/adolescentes com paralisia cerebral grave. “Esse achado decorre, em parte, devido à presença de barreiras arquitetônicas, falta de serviços públicos e ausência de capacitação profissional”.

Mesmo com esses empecilhos, no estudo foi evidenciado um baixo número de crianças e adolescentes que nunca foram ao dentista. Para a pesquisadora, esse fato pode ser visto como reflexo da existência de programas sociais como o Brasil Sorridente e a Rede de Cuidados à Pessoa Deficiente (RCPD), que no setor público tem modificado a Atenção da Saúde Bucal no Brasil, através de ações de promoção, prevenção e recuperação da saúde bucal da população do país.

No entanto, isso não significa profissionais mais preparados. Quando questionadas sobre sugestões de coisas que poderiam ser realizadas para a melhoria da saúde bucal das crianças e adolescentes com PC, a maioria dos responsáveis (91,1% delas) levantou a necessidade de mais dentistas especializados para o atendimento desses indivíduos. Em seguida, ficou maior facilidade de transporte, com 46,6%, e mais vagas/clínicas especializadas, item mencionado por 28,8% dos responsáveis.

DOR | De acordo com Elizabeth, também foram verificados percentuais significativamente maiores de pais/cuidadores que percebem uma maior necessidade de cuidados na higiene bucal da criança e do adolescente com PC grave. A maioria (94,6%) das mães/cuidadores informou que os problemas na saúde bucal podem gerar consequências, estando entre elas a ocorrência de dor de dente, prejuízo na estética dos dentes e no comportamento da criança/adolescente com paralisia cerebral.

A pesquisadora conclui, portanto, que existe a necessidade de iniciativas que promovam orientações aos cuidadores/familiares sobre a adoção de práticas cotidianas de higiene bucal juntamente a ações desenvolvidas pelos serviços odontológicos, como visitas frequentes ao Cirurgião-Dentista, diminuindo a ocorrência de doenças bucais e melhorando a qualidade de vida das crianças/adolescentes com paralisia cerebral.

Mais informações
Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e do Adolescente
(81) 2126.8514
ppgsca@gmail.com

Elizabeth Louisy Marques Soares da Silva
beth_louisy@hotmail.com

Data da última modificação: 07/06/2019, 17:07