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Divisão sexual do trabalho interfere na socialização e nas escolhas profissionais das mulheres

Segundo mestra pela UFPE, as relações sociais assimétricas de sexo contribuem para colocar as mesmas em locais de subordinação

Por Larissa Valentim

Desde muito novas, as mulheres são ensinadas sobre que locais podem e devem ocupar na sociedade. E, a respeito dessa constatação, Tânia Dias, mestra em Direitos Humanos pela UFPE, aponta que o sistema patriarcal, que se alastra em todos os âmbitos nos quais as mulheres estão inseridas, as coloca em situação de subordinação: na esfera familiar, na formação escolar e profissional, na maneira de exercer e expressar a sexualidade, no trabalho ou demais relações sociais. Autora da dissertação “O que vou ser quando crescer?: A divisão sexual do trabalho na socialização das mulheres e em suas escolhas profissionais”, Tânia revela, no estudo, que “as relações sociais assimétricas de sexo - entre homens e mulheres - contribuem para colocar as mesmas em locais de subordinação”.

A pesquisa, produzida no Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos da UFPE (PPGDH), aponta a existência de duas esferas essenciais para manutenção da ideia de que mulheres só podem ocupar determinados lugares: a família e a escola. A família, segundo o estudo, é responsável pelo primeiro contato com as normas e estruturas sociais e a escola, responsável pelo processo formal/institucional de educação. “Juntas, são as principais responsáveis pela formação objetiva e subjetiva dos sujeitos sociais”, afirma Tânia, para quem, “estas duas esferas sociais, tão presentes na socialização das crianças e também de adolescentes, se comportam de maneira a reproduzir tanto o sistema patriarcal, quanto o sistema capitalista”.

Ainda com base na pesquisa, esse papel assumido pela maioria das famílias acaba reproduzindo a lógica patriarcal e capitalista, “uma vez que faz uso da base material das relações sociais de sexo, que é a divisão sexual do trabalho”. A dissertação, orientada pela professora Celma Tavares observa, ainda que, desde crianças, as meninas aprendem a se comportar como meninas, brincam com panelas e vassouras para treinar atividades domésticas e bonecas, para treinar a maternidade. Para a autora da pesquisa, “o que parece brincadeira durante a infância reflete-se no comportamento futuro dessas mulheres, em quais empregos ou graduações elas acham que são aptas a escolher ou se candidatar”. Esse tipo de socialização, segundo o estudo, restringe o grupo social feminino a buscar empregos como enfermeira, pedagoga, assistente social, psicólogas etc. “Entre as entrevistadas que possuem irmãos, é nítida a diferença de socialização, pois delas é cobrada a ajuda em serviços domésticos, por exemplo, e dos irmãos não”, exemplifica.

A dissertação conclui que o modo de socialização ao qual os indivíduos homens e mulheres são submetidos é desigual e “capaz de determinar diferenças econômicas, culturais e sociais que se reproduzem e produzem, ao longo da vida desses sujeitos, socialmente sexualizados, nas mais variadas esferas da vida social”. Enquanto os homens podem se dedicar a diversas áreas de conhecimento, mulheres se restringem a atividades relacionadas ao cuidado. A pesquisa, por fim, pontua a necessidade de modificação desses modos de socialização para quebra desses estereótipos, aponta a dissertação. 

METODOLOGIA | Inicialmente, a autora realizou uma revisão bibliográfica, seguida da pesquisa de campo, na qual foram analisados os dados coletados em duas turmas de pré-vestibular (3º ano do Ensino Médio) de escolas do Recife, uma de ensino público e outra de ensino privado. A coleta de dados foi realizada por meio de diferentes instrumentos: observação não participante; análise documental; questionário; entrevista semiestruturada. A aplicação do questionário foi feita com a finalidade de entender o perfil das 30 estudantes escolhidas, entender suas escolhas profissionais etc.

As observações da pesquisa foram feitas durante o período de algumas aulas e intervalos, a fim de conhecer especificidades das escolas como corpo discente, festividades, projetos e outras características presentes na dinâmica escolar, que poderiam contribuir para uma melhor avaliação das mesmas. A análise documental englobou documentos importantes das escolas, como o projeto político-pedagógico, o regimento escolar e os projetos interdisciplinares. 

“O público estudado se refere a meninas prestes a fazer o vestibular (escolhendo, assim, seu possível futuro profissional), estudantes de bairros vizinhos, de uma escola privada e de uma escola pública da cidade do Recife, em Pernambuco, no intuito de agregar ao trabalho especificidades como classe e raça, ao considerar que, em meio à sociedade capitalista, tais opressões devem ser vistas não de maneira isolada, mas em conjunto, uma vez que as três opressões estabelecem entre si uma relação indissociável”, afirma a mestra em Direitos Humanos.

Mais informações

Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos da UFPE (PPGDH)
(81) 2126.8766
ppgdh@ufpe.br

Tânia Lúcia Farias Dias
tanialfdias@gmail.com

Data da última modificação: 26/06/2019, 17:27