
Um protocolo para identificar e analisar a presença de microplásticos em organismos e sedimentos do ambiente marinho foi desenvolvido durante o doutoramento da pesquisadora Suelen N. Santos no Programa de Pós-Graduação em Oceanografia (PPGO) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), sob orientação do professor José Souto Rosa Filho e com a colaboração de colegas de laboratório. “A invenção consiste em um estúdio U.V. de baixo custo, desenvolvido em estrutura de madeira com fechamento hermético, projetado para otimizar a detecção de partículas plásticas por fluorescência”, resume Suelen.
Antes mesmo da defesa da tese, marcada para meados de abril, já foi feito o pedido de registro de patente junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), sob o código de patente BR1020240271645. “A autoria institucional inclui a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que prestou suporte técnico e administrativo durante o processo de depósito e acompanhamento da patente, contribuindo diretamente para a formalização e proteção da tecnologia”, pontua Suelen.
Para realizar o estudo, ela trabalhou com esponjas do mar, macroalgas, cracas, bivalves e sedimentos colhidos em diferentes pontos do litoral pernambucano. Isso foi feito em áreas com níveis distintos de intervenção humana, como a região do Pina (Recife) e a praia de Toquinho (litoral sul), para que fosse possível comparar cenários com diferentes pressões ambientais.
O foco do projeto de pesquisa que ela desenvolve no PPGO, com orientação do professor José Souto Rosa Filho e coorientação do professor Severino Alves Junior, intitulado “Active and passive accumulation of microplastics in marine benthic organisms on the coast of Pernambuco – Brazil”, estava em aprimorar a precisão na identificação de microplásticos em matrizes biológicas e ambientais. O doutorado contou com um período sanduíche no Norsk Institutt for Luftforskning (Noruega), onde Suelen teve como orientadora a pesquisadora Natascha Schmidt.
As matrizes são amostras colhidas para serem analisadas em laboratório. “O trabalho investiga a acumulação ativa e passiva de microplásticos em organismos bentônicos ao longo da costa, analisando mecanismos de retenção, ingestão e interação partícula-organismo”, explica Suelen, que continua: “A tecnologia proposta surgiu a partir das demandas metodológicas identificadas durante a execução da pesquisa, especialmente no que diz respeito à padronização de protocolos, redução de contaminação cruzada e aumento da confiabilidade analítica”.
“Durante os primeiros levantamentos bibliográficos e análises preliminares, percebi que muitos estudos ainda apresentam limitações metodológicas, especialmente na etapa de identificação e caracterização das partículas, o que pode levar a superestimações ou subestimações dos resultados. Essa constatação me motivou a focar no aprimoramento da precisão analítica e triagem visual criteriosa”, completa a pesquisadora.
ESTÚDIO U.V. DE BAIXO CUSTO – Suelen afirma que o sistema desenvolvido durante o período que ela estudou no curso de doutorado no PPGO concentra a radiação ultravioleta (aproximadamente 380 nm), reduzindo a dispersão de luz e aumentando a eficiência na visualização de partículas plásticas previamente coradas com Vermelho do Nilo. Ela conta que a análise é realizada com auxílio de estereomicroscópio e software de ampliação de imagem, permitindo maior precisão e agilidade na triagem de microplásticos.
“Além de contribuir para a padronização analítica e redução de contaminação, o estúdio apresenta potencial de aplicação em setores ambientais, industriais e regulatórios, diante da crescente demanda por monitoramento da poluição por microplásticos. Em outras palavras, consiste em um sistema fechado e controlado para triagem e identificação preliminar de microplásticos”, avalia a pesquisadora.
“O método funciona com o auxílio do corante Vermelho do Nilo (Nile Red), que se liga seletivamente a materiais poliméricos hidrofóbicos. Após a aplicação do corante, as amostras são submetidas à exposição à luz ultravioleta, o que induz fluorescência apenas nas partículas plásticas. Esse princípio permite distinguir rapidamente partículas plásticas de materiais naturais, evitando a captura e análise de partículas não plásticas. Com isso, há uma redução significativa do tempo de triagem e um direcionamento mais eficiente das análises confirmatórias posteriores, realizadas por técnicas como FTIR e Raman. Outro diferencial importante é que o sistema foi projetado em ambiente fechado, com estrutura em madeira e materiais que não liberam plástico, minimizando a contaminação cruzada – um dos principais desafios em estudos com microplásticos. O controle ambiental interno reduz a deposição de fibras aéreas e partículas externas sobre a amostra, aumentando a confiabilidade analítica e a reprodutibilidade dos resultados. Ao integrar fluorescência seletiva, controle físico do ambiente e fluxo padronizado de análise, a invenção contribui diretamente para a padronização de protocolos, otimização do tempo laboratorial e geração de dados mais robustos sobre poluição plástica”, conclui Suelen.
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Suelen N. Santos