Museu - Acervo e patrimônio UFPE Museu - Acervo e patrimônio UFPE

A Diretoria de Cultura da Proexc propõe a toda comunidade um passeio pelas obras que compõem o patrimônio artístico cultural. Nela serão apresentados trabalhos dos mais variados artistas de renome, tanto no cenário local quanto internacional.

 

Canto d’Atelier (Francisco Brennand) – 1953

A cidade do Recife possui marcas indeléveis provocadas pela arte de Francisco Brennand (1927-2019). Ceramista e escultor, o recifense ajudou a compor um luxuoso “museu público e a céu aberto” na geografia da capital, a exemplo das 90 peças dispostas no Parques das Esculturas. A UFPE, inclusive, faz parte desse roteiro artístico, com o mural em azulejo pintado “Juventude Estudiosa”, de 1970 (e revitalizado em 1996), que preenche de forma imponente a fachada da nossa Reitoria.

No entanto, para dar início à série QuarentenArte selecionamos a obra “Canto d’Atelier”, de 1953, um óleo sobre tela que expressa seu interesse pela natureza, tema bastante evocado nas suas pinturas, porém retratado aqui de forma menos fantasiosa e em linhas mais complexas. Chama atenção também os tons e sobretons mais escuros, que se contrapõem às cores vívidas de suas pinturas mais conhecidas. A peça faz parte da coleção do Centro Cultural Benfica da UFPE e perpetua a versatilidade desse mestre, cujo legado é resguardado pela Oficina Cerâmica Francisco Brennand, na Várzea, e pelo imaginário de Pernambuco, do Brasil e do mundo.

 

Estátua de Paulo Freire (Abelardo da Hora) – 2013

Abelardo Germano da Hora (1924-2014), pernambucano de São Lourenço da Mata, foi escultor, desenhista, gravador e professor. E a soma de todas essas frentes concebeu uma das figuras mais importantes na produção e na difusão da arte moderna em nosso Estado. Sua vocação para a articulação cultural mostrou seu potencial através da criação da Sociedade de Arte Moderna do Recife (SAMR), em 1948, e do Ateliê Coletivo, em 1952. Abelardo dirigiu essas duas importantes entidades para a consolidação da arte moderna em Pernambuco, além de ter atuado na linha de frente, junto com Paulo Freire e outros nomes importantes, na criação do Movimento de Cultura Popular (MCP). Compartilhava com o amigo Freire o amor pela educação e pela valorização da cultura.

Artista expressionista, Abelardo da Hora explorou, ao longo de sua produção, dois grandes temas: o amor e as questões sociais. O amor se expressa por sua devoção às mulheres, tema de diversas de suas esculturas; já as questões sociais se mostram, artisticamente, através da denúncia de injustiças, como a miséria e a fome. Além desses dois grandes eixos, Abelardo também contribui com estátuas de figuras públicas, como a do educador e amigo Paulo Freire, instalada no campus da UFPE durante o II Encontro Pedagógico Latino-Americano, em 2013. A inauguração da estátua foi no dia do nascimento de Freire, 19 de setembro, e contou com a presença do artista. O monumento fica na área do Lago do Cavouco, próximo ao Colégio de Aplicação e ao Centro de Educação.

 

Sem Título (Tereza Costa Rego) – 1983

A histo´ria da arte ocidental registrou o corpo feminino em diversos momentos, em sua maioria, no entanto, sob a o´tica masculina. A presenc¸a da mulher artista passou a ganhar mais notoriedade nos movimentos vanguardistas; e na arte produzida em Pernambuco na~o foi diferente. A recifense Tereza Costa Re^go (1929) e´ o nome feminino mais expressivo do modernismo local. Ela e´ conhecida principalmente por sua pintura, que costuma explorar as dimensões internas do ser humano, como a sexualidade, as memo´rias e o intimismo, traduzidos visualmente pelas figuras do corpo feminino e tons de vermelho e preto.

Tereza iniciou os estudos aos 15 anos de idade na Escola de Belas Artes de Pernambuco, precursora dos cursos de arte hoje em funcionamento no Centro de Artes e Comunicac¸a~o da UFPE. Desde enta~o, em momento algum, parou de produzir e experimentar. Prova disso e´ sua fase como litogravurista, durante o peri´odo que esteve ligada a` Oficina Guaianases de Gravura, entre 1983 e 1995. Dentre as obras produzidas por Tereza neste peri´odo, destacamos esta litogravura em cores. A imagem retrata uma figura feminina sob um guarda-chuva, tingida com o seu vermelho característico.

A obra se encontra hoje no Memorial Denis Bernardes da UFPE e integra o acervo de obras raras junto com as outras aproximadamente mil gravuras que compo~em o Acervo Guaianases, doado a` Universidade em 1995. Parte desse acervo esta´ digitalizado no link www.ufpe.br/guaianases. Nele e´ possi´vel conhecer outras obras de Tereza, como suas litogravuras em branco e preto.

 

Família de retirantes (Mestre Vitalino) – sem data

O escultor Vitalino Pereira dos Santos (1909-1963) cravou seu nome na história da arte brasileira sob a merecida alcunha de “mestre”. Nascido na zona rural de Caruaru, Vitalino começou ainda na infância a modelar pequenos animais com as sobras do barro que sua mãe utilizava para fazer utensílios domésticos e vender na Feira de Caruaru. A brincadeira foi, aos poucos, se tornando ofício. E quando se muda para o povoado do Alto do Moura, nos anos 1940, passa a atrair interessados que se tornaram discípulos do então jovem mestre.

À medida em que desenvolvia sua arte, Vitalino reconstruiu um imaginário do Nordeste em hábitos e costumes interioranos através de suas peças. Com uma visão expressionista, Vitalino abre mão da forma mimética para imprimir um traço autêntico e singular na representação das narrativas em sua volta. Seu trabalho ganhou visibilidade após participar com diversas obras na I Exposição de Cerâmica Pernambucana, realizada no Rio de Janeiro, em 1947.

Sua obra foi incorporando características técnicas diferente ao  longo do tempo. Usou no início apenas pigmentos naturais de barro para dar cor e depois incorporou tintas industriais em suas peças. A temática musical apareceu em suas esculturas, assim como muitas outras narrativas visuais da vida agrestina, a exemplo da Feira de Caruaru, hoje galeria de seu legado. No Alto do Moura, a casa em que viveu é, hoje, um museu dedicado à memória do Mestre.

Quatro anos depois de sua morte, a UFPE adquire as primeira obras de Vitalino para seu acervo. Conforme registro nos arquivos do Centro Cultural Benfica, datado de 19 de abril de 1967, na gestão de Hermilo Borba Filho como diretor do Departamento de Extensão Cultural, 22 peças do artista foram compradas dos colecionadores Roberto Rosa Borges e Achiles Leal Wanderley. As primeiras de uma coleção de arte popular em contínua expansão.