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Medo de dentista repercute na autoimagem e qualidade de vida dos pacientes

Condição bucal ruim impacta negativamente na autopercepção a respeito das condições do bem-estar das pessoas

Por Fabson Gabriel                                                                                                     

Você faz parte do grupo das pessoas que ao sentar numa cadeira de dentista se sente desconfortável? Sente ansiedade... medo? Pois saiba que você não está só. Uma pesquisa realizada com mais de duzentas pessoas, com média de 44 anos de idade, revelou que 23,3% dos indivíduos têm algum grau de ansiedade, sendo 7,3% desses muito ansiosos, considerados odontofóbicos, e 16% apenas ansiosos. O trabalho, realizado no Programa de Pós-Graduação em Odontologia do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da UFPE, mostrou que o medo de dentista interfere na qualidade de vida, uma vez que, em diversas populações, a condição bucal ruim impacta negativamente na autopercepção a respeito das condições do bem-estar das pessoas.

O estudo “Impacto da ansiedade, do medo ao tratamento odontológico e da condição bucal na qualidade de vida de usuários de serviços odontológicos”, de autoria do pesquisador Luiz Alexandre Moura Penteado e orientado pela professora Renata Cimões Jovino Silveira, também aponta que há diferença significativa entre homens e mulheres com relação ao sentimento diante da cadeira do dentista. "As ansiosas representaram 20%, enquanto os ansiosos figuram em 6,1% dos casos”, explica o autor. A dissertação reforça que a ansiedade e o medo do tratamento dentário são capazes de influenciar diretamente na tomada de decisões dos indivíduos ao buscar atendimento odontológico. ”Mesmo pessoas com potencial acesso ao tratamento podem se evadir desse ato em razão do sentimento que portam e, por isso, acumularem problemas odontológicos que podem impactar em suas vidas e atividades diárias”, esclarece o pesquisador.

A pesquisa, que investigou a frequência da ansiedade e do medo dos pacientes no atendimento odontológico, foi realizada em dois centros de referência na cidade de Maceió, no Estado de Alagoas, locais estes, segundo Penteado, que careciam de dados dessa natureza. Para o levantamento, foram utilizados os questionários da Escala de Ansiedade Odontológica Modificada de Corah (MDAS) e da Escala de Medo de Gatchel. O questionário para detecção do nível de medo tem perguntas diretas, às quais o entrevistado responde em uma escala de zero a dez. Já o questionário de detecção e classificação da ansiedade possui uma sequência de cinco perguntas que envolvem atividades de rotina de atendimento, desde o momento da espera, passando pela anestesia e culminando com procedimentos clínicos.

“Também fizemos o levantamento da condição odontológica, dental e periodontal dos participantes, para verificar se sujeitos ansiosos e com medo teriam uma pior condição bucal, devido ao provável retardo na busca de atendimento por causa deste sentimento”, informa o pesquisador. O processo de investigação foi concluído utilizando o questionário Oral Health Impact Profile, versão simplificada (OHIP-14), para verificar se os portadores da ansiedade e medo teriam a percepção da pior condição bucal e seu impacto na qualidade de vida. O pesquisador constatou que autopercepção da condição bucal com impacto negativo na qualidade de vida, por esta escala, foi prevalente em pouco mais 38,3% dos investigados.

CONSELHOS | Para as pessoas extremamente ansiosas, Alexandre Penteado aconselha os dentistas a procurarem acolher os pacientes, respeitando o momento individual de cada consulta. “Estudos evidenciam que, para alguns, isso ajuda, enquanto, para outros, isso os deixa mais ansiosos. Quantos de nós (dentistas) já vimos pessoas que vão passar por um procedimento que dizem: ‘Doutor, não me diga nada e apenas faça, assim fico mais calmo.’ Enquanto para outros o inverso é verdadeiro. Por isso, insisto, acolha, conheça, e particularize o atendimento”. O pesquisador diz ainda que, embora haja escassez de estudos na área, há indícios de que existe no Brasil uma prevalência clinicamente importante da ansiedade ao atendimento odontológico.

Embora o estudo seja direcionado à faixa etária adulta, Penteado afirma que existem outras pesquisas relatando que o medo ao atendimento odontológico tem origem na infância quando as crianças são mais influenciadas. “Encontram-se relatos de medos originados por conversas próximas às crianças que nunca foram ao dentista, mas escutam de adultos descrições indigestas e, assim, os introjetam como medo.” Outra origem do medo, segundo o pesquisador, decorre de vivências realmente negativas passadas pelos pacientes. “Qualquer que seja o medo, por meio de origem indireta ou direta, esses indivíduos tendem a retardar a busca por atendimento e, assim, voltam a ser atendidos somente quando estão com dor e, portanto, vivem novas experiências desconfortantes”, explica.

Sobre se o homem sente mais medo do que a mulher, ou vice-versa, Penteado explica que vem sendo detectado que o medo e ansiedade diante do atendimento odontológico têm maior recorrência em mulheres. Ele sintetiza: “Busca-se explicar essa relação por questões sociais, uma vez que invariavelmente as mulheres procuram mais atendimento e cuidam da sua saúde. Outro fato é que as mulheres externam mais naturalmente seus sentimentos, sem pudores ou preconceitos que possam ser associados.”

Mais informações
Programa de Pós-Graduação em Odontologia
(81) 2126.8817 | 2126.8836

Luiz Alexandre Moura Penteado
penteado.odonto@gmail.com
luiz.penteado@hu.ufal.br

Data da última modificação: 24/01/2018, 12:50