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Peixes fósseis da bacia do Araripe apresentam raro processo de preservação dos tecidos moles

Os achados favorecem a identificação de como eram os organismos que viviam há milhões de anos no Brasil.

Por Ellen Tavares  

Tudo na natureza surge por meio de processos, etapas e ações. Saber como eram os organismos que habitavam o Brasil há milhões de anos, como viviam e do que se alimentavam são curiosidades que podem ser respondidas a partir do registro nos fósseis, pois esses materiais permitem a recuperação de informações paleobiológicas, ou seja, informações da vida que existia no passado geológico da Terra. A pesquisa “Decifrando o gradiente de piritização-querogenização para preservação de tecidos moles de peixe”, que teve participação da professora Paula Sucerquia, do Programa de Pós-Graduação em Geociências da UFPE, verificou a preservação de tecidos moles em peixes fósseis da Formação Crato na Bacia do Araripe há aproximadamente 113 milhões de anos.

O estudo, que foi publicado na revista Scientific Reports pertencente à editoria da Nature, concluiu que enquanto a piritização ajudou a preservar tendões, membranas e núcleos celulares e tecido dos olhos, a querogenização conservou, sobretudo, tecidos conjuntivos, tegumento e fibras musculares de peixes que viviam na localidade estudada. No primeiro processo, os tecido moles foram substituídos por pirita, mineral composto basicamente por ferro e enxofre, e no segundo, a preservação dos tecidos moles se fez através da formação de querogênio, parte insolúvel da matéria orgânica que fica retida em rochas sedimentares.

Uma das raras regiões no mundo a abrigar uma grande variedade de fósseis de animais pré-históricos com tecidos moles bem preservados, a bacia do Araripe, localizada na divisa dos estados do Ceará, Piauí e Pernambuco, possibilitou a preservação desses tecidos em peixes fósseis da espécie Dastilbe crandalli proveniente dos calcários laminados na Formação do Crato. “A importância da preservação de tecidos moles em fósseis vem da raridade da ocorrência deste processo, que nos permite ter uma ideia melhor de como eram os organismos que viviam há milhões de anos no Brasil. É possível também saber quais foram as condições geoquímicas que permitiram a preservação de tecidos moles em fósseis da bacia do Araripe”, afirma Paula.

Segundo aponta o estudo, assim que um organismo morre inicia-se o processo de decomposição, também chamado de necrólise, que consiste na decomposição dos tecidos não resistentes. Alguns tecidos começam a se decompor em horas, outros em dias, porém estruturas de tecidos moles ou soft tissues – olhos, tecidos conjuntivos e fragmentos de fibras de coração – que são estruturas histológicas não biomineralizadas, ricas  em fibras de colágeno e elastina, são as primeiras a se decompor e dificilmente se fossilizam. Nas raras vezes em que são preservadas, permitem que esse tipo de pesquisa se desenvolva. "Esses fenômenos só ocorrem em outros lugares no registro geológico", explica a pesquisadora.

PROCESSO | A partir das análises por meio da Microscopia Eletrônica de Varredura e Espectroscopia por Fluorescência de Raios X foram decifrados os processos de preservação dos peixes mantidos em dois tipos de calcário: o bege e o azul. Nos calcários beges, tecidos moles, como tendões, membranas e núcleos celulares e tecido dos olhos, foram preservados por meio da piritização, na qual a precipitação do mineral pirita foi favorecida pela presença de bactérias redutoras. “Isso significa que os elementos que constituem esses fósseis foram substituídos por pirita, mineral composto basicamente por ferro e enxofre”, explica. Segundo a pesquisadora, essa é a primeira vez que se observa um caso de piritização em um fóssil de vertebrado. Os poucos registros conhecidos são de insetos ou invertebrados diversos.

Nos calcários azuis, a preservação dos tecidos moles, principalmente tecidos conjuntivos, tegumentos e fibras musculares, fez-se através da formação de querogênio, parte insolúvel da matéria orgânica que fica retida em rochas sedimentares, também com ajuda de atividade bacteriana. “Nesse processo, o carbono orgânico assume uma forma mais estável, capaz de perdurar por milhões de anos e em ambos os casos, no entanto, esses processos geoquímicos teriam sido condicionados pela ação de bactérias decompositoras”, esclarece.

Segundo Paula, por meio da respiração anaeróbia (sem oxigênio) os microrganismos teriam auxiliado na substituição da matéria orgânica em decomposição pela pirita ou pelo querogênio, dependendo do tipo de calcário em que os fósseis se preservaram. "À medida que esses processos avançaram, os elementos que compunham as estruturas orgânicas desses animais foram sendo lentamente destruídos e substituídos por pirita ou querogênio, deixando marcas nas rochas que os envolviam", afirma.

Ao examinar os fósseis piritizados, os pesquisadores identificaram resquícios da atividade desses microrganismos. “Encontramos estruturas lisas e flexíveis, semelhantes a uma teia de aranha, resultantes da metabolização da pirita pelas bactérias”. Isso explicaria por que cada processo geoquímico preservaria de forma distinta essas estruturas moles. “Apesar de ambos conservarem essas estruturas de modo único, os fragmentos fósseis dos tecidos moles encontrados em sedimentos bege, de tamanho microscópico, são ainda mais bem preservados do que os depositados em calcários cinza”, explica.

Mais informações

Programa de Pós-Graduação em Geociências
(81) 2126.8726
ppgeoc@ufpe.br

Paula Sucerquia
psucerquia@gmail.com 

 

Data da última modificação: 05/07/2017, 18:24