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Maio, 1968

Publicado no Jornal do Commercio, no dia 22 de setembro de 2018

Por Anísio Brasileiro

A universidade pública só exerce sua autonomia plena contribuindo efetivamente para a sociedade, em ambientes democráticos. Em períodos autoritários, ela resiste, coloca-se na linha de frente da luta pelas liberdades democráticas. Esse foi o sentido dos protestos estudantis em Córdoba, na Argentina, em 1918, pela gratuidade e autonomia universitária, assunto do nosso artigo anterior no JC. Foi ainda, 50 anos depois, o catalisador das jornadas de maio-junho em Paris, quando eclodiu o movimento antiautoritário que acabou se espalhando pelo mundo inteiro.

O Maio de 68 começou pequeno, com uma centena de estudantes ocupando a Universidade de Nanterre. Mas havia algo mais intenso no ar e, em poucos dias, estudantes, professores, operários, artistas tomavam o Teatro dos Amandiers, o Palais de Tokio, a Escola de Belas Artes, a Sorbonne. Em seguida, foram os Liceus, as cidades do interior e as fábricas.O movimento de Paris logo chegou a outros países europeus, incluindo a antiga Tchecoslováquia (com a Primavera de Praga), e a América Latina. 

No Brasil, em 1968, esse foi o sentido da Passeata dos Cem Mil no Rio de Janeiro, em protesto contra a morte do estudante Edson Luís pela Polícia Militar, e das manifestações que se seguiram.No final daquele ano, nosso País entraria num longo período de sombras, com a edição do AI-5. O País só voltou à democracia com as eleições diretas para presidente em 1989*,tendo as universidades exercido papel central na luta pela redemocratização.

1968 foi também o ano de implantação da Reforma Universitária, que vinha responder à industrialização do País e ao crescimento das cidades, ampliando a pressão por mais vagas na educação superior.A criação do Conselho Federal de Educação, em 1961,já sinalizava esta necessidade de mudar, assim como os Decretos 53 (de 1966) e 252 (de 1967), que criaram as universidades federais. Em 1968, a Lei 5.540 reestruturou todo o ensino superior e definiu o processo de escolha de reitores.

Hoje, 50 depois, temos que celebrar, sobretudo, o surgimento da pós-graduação e sua extraordinária expansão. Este ano a UFPE festeja os 50 anos de implantação dos seus primeiros cursos de pós-graduação. Hoje, nossa Universidade abriga 72 mestrados acadêmicos, 11 mestrados profissionais e 53 doutorados. Ela formou, em 2017, 1.296 mestres e 630 doutores. É uma enorme contribuição para o desenvolvimento soberano do Brasil, conquista de tantas lutas daqueles que nos antecederam. 

Anísio Brasileiro é reitor da UFPE

*A informação foi modificada em relação ao texto original publicado no jornal.

Data da última modificação: 24/09/2018, 13:49