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Jornal do Commercio- Uma vida numa sala de aula
Uma vida numa sala de aula
Artigo
Página 36

Uma vida numa sala de aula
E vai chegando a hora em que aquela pergunta nietzschiana começa a fazer sentido: “Sua vida valeu a pena ter sido vivida?” (“Ecce Homo”). Agora, nesse início de Março, eu completarei 50 anos de magistério e 40 como professor da UFPE.
Não tenho nenhuma dificuldade em aceitar que, mais do que um pesquisador atento às exigências atuais de produtividade e esforço acadêmicos, situo-me com serena convicção numa faixa de inserção universitária que creio em lento processo de declínio. E essa faixa onde me localizo me lança de volta ao tema ao qual, praticamente, dediquei boa parte de meu tempo e energia: a relação do intelectual com a cidade.
Sou um professor! E, em bora admita que o termo ofereça margem a difusa interpretação, possuo sobre ele opinião precisa: tenho a convicção, consolidada, aliás, através de algumas leituras decisivas, de que o que está em jogo na educação não é apenas a aprendizagem ou o ensino de determinados conteúdos, atitudes, ações, com petências ou habilidades; nem somente a formação integral de pessoa humana ou um complexo programa de subjetivação (socialização/ individuação). Embora concorde com todos estes projetos, penso que o que está em jogo em nossa profissão é o MUNDO, quer dizer, o conjunto das significações que Flávio Brayner: “Fui e permanecerei professor. Nessa ou em qualquer outra vida que me for oferecida” somente a pluralidade dos pontos de vista das pessoas é capaz de produzir. Oferecer as condições para que nossos alunos adquiram um ponto de vista sobre o Mundo e discuti-lo, além de assegurar a continuidade do espaço onde este Mundo se discute, parecem-me as tarefas fundamentais do professor/educador.
Foi neste sentido, no sentido em que entendo minha profissão e, ouso dizer, no sentido em que compreendo a função intelectual em nosso tempo – uma função “mundana” (e vai aqui toda minha discordância de autores como Julien Benda – “La trahison des clercs”), ligada aos eventos contemporâneos que carecem de reflexão e crítica. Num certo sentido continuo intelectual e moralmente ligado a uma certa concepção do ser professor que herdei de alguns de meus mestres ou da leitura de alguns autores (como George Steiner – “Maîtres et disciples” -, por exemplo) que faz com que eu continue a crer que o aluno, ou melhor, na relação com o aluno habita o grande enigma da educação e que pode ser expresso na forma como o fez Umberto Eco em uma inspirada crônica (“Comment voyager avec um saumon”). Nela, esse autor assinala com delicada ironia o fato de entrarmos em um mundo já estruturado, quando as cartas já foram lançadas, e sair dele sem saber o que acontecerá com os outros... Isso nos reenvia à tarefa arendtiana da “apresentação do mundo” a quem chega nele e à assunção do que essa autora chama de “responsabilidade do mundo”. É nessa direção que construo minha aula e minha relação com os alunos – como “aula-problema”: sem respostas completamente satisfatórias, sem intenções normativas. Uma aula que tenta, de diferentes maneiras e a partir de diferentes pontos de vista, responder à questão que considero crucial no tempo em que vivemos: é possível entender e dar sentido às formas discursivas que nos estruturam como “sujeito” e propor, através da educação, um outro projeto de subjetivação que escape ou evite as armadilhas onde caiu o sujeito moderno?
Conclui uma carreira que passou por todos os níveis de ensino – fundamental, médio, superior e pós-graduação – aqui no Brasil e na França, quando poderei enxergar meu próprio itinerário profissional e as escolhas que fiz, e como quem completou uma história com essa Universidade, onde exerci praticamente toda minha vida profissional e a quem devo toda a minha formação, que começou quando – assustado e desconfiado – eu atravessei as portas do antigo Ginásio de Aplicação, no longínquo ano de 1968...
Guardo, porém, de todos esses anos de ensino a viva lembrança de maravilhosos alunos que, pela acuidade do olhar, sensibilidade para as questões de seu tempo e pela inteligência de seus posicionamentos, vincaram definitivamente minha memória. Dos tempos do Instituto Capibaribe, da Escola Parque, passando pelo Colégio Torres e São Luís, pela Faculdade de Formação de Professores de Nazaré da Mata e, claro, aqueles a quem me dediquei no Centro de Educação da UFPE. Não tenho nenhuma hesitação em afirmar que meus alunos foram o que de mais importante eu tive na vida: É POR CAUSA DELES, APESAR DELES, A PARTIR DELES, COM ELES, EM FUNÇÃO DELES, PARA ELES... que pude afirmar a única “identidade” que considero estável em mim e que foi, no fundo, uma resposta a um chamado interno –uma “voccacionis”- que exigia que eu fosse professor, sem o quê, toda minha vida teria sido a de um homem atormentado e em profundo desacordo interior. Eis, pois, a divisa que resume minha vida:
Fui e permanecerei professor. Nessa ou em qualquer outra vida que me for oferecida. Tive alunos que me ouviram, que me respeitaram, que me amaram. Quase não precisei de outra coisa para viver: fui imensamente feliz!
Flávio Brayner (permanecerá) professor