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Jornal do Commercio- Lusofonia: problemas comuns, identidades plurais e futuros possíveis
Lusofonia: problemas comuns, identidades plurais e futuros possíveis
Opinião
Página 31

Lusofonia: problemas comuns, identidades plurais e futuros possíveis
“A pátria nossa é a língua portuguesa.” Fernando Pessoa No dia 28 de janeiro estivemos em Lisboa para participar do lançamento do Barômetro da Lusofonia, iniciativa do IPESPE conjuntamente com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Na ocasião, o Reitor da UFPE, Professor Alfredo Gomes, também esteve presente para assinatura de um convênio entre a UFPE e o IPESPE. Portugal estava sob os efeitos dos resultados das eleições presidenciais de 1° turno, ou 1° volta como eles se referem. Depois de 40 anos os lusos originários terão um segundo turno para presidente da República. O país estava também sob ataque do tempo. Temporais e baixas temperaturas destruíram vilarejos e com prometeram a infraestrutura de importantes cidades.
Esse foi o contexto da apresentação dos resultados desta iniciativa singular realizada no Palácio Conde de Penafiel. O Barômetro da Lusofonia constitui um marco inédito na produção de conhecimento comparado sobre as sociedades de língua portuguesa, ao articular um questionário amplo, padronizado e aplicado simultaneamente em oito países da CPLP. O projeto inaugura um instrumento de escuta cidadã capaz de revelar, com base empírica robusta, percepções, valores, prioridades e expectativas no espaço lusófono.
Os principais resultados apontam para uma convergência expressiva em torno de uma tríade de problemas estruturais: saúde, educação e desemprego surgem de forma recorrente como as maiores preocupações dos cidadãos nos diferentes países pesquisados, ainda que com variações de intensidade conforme o contexto nacional. Esse achado reforça a centralidade da qualidade dos serviços públicos e das condições de inserção econômica como eixos fundamentais da agenda social da lusofonia. Ao mesmo tempo, o Barômetro revela paradoxos relevantes. Observa-se, por exemplo, uma dissociação entre satisfação com a vida pessoal e avaliação crítica do desempenho institucional dos países, sugerindo resiliência individual combinada à desconfiança estrutural. Em vários contextos, a frustração com o funcionamento da democracia convive com elevada valorização do voto e da participação política, indicando demandas por accountability e por sistemas políticos mais eficazes.
Outro resultado de grande impacto diz respeito às assimetrias internas da própria lusofonia. O Brasil aparece como principal polo de difusão cultural, especialmente em música, audiovisual e literatura, mas simultanea mente como o país menos informado e menos integra do culturalmente em relação aos demais membros da Co munidade. Esse isolamento paradoxal evidencia limites da integração simbólica baseada apenas na língua e aponta para a necessidade de políticas ativas de intercâmbio cultural, educacio nal e científico. A pesquisa também aprofunda temas contemporâneos sensíveis, como migração, desinfor mação, desigualdade social, legado da escravidão, mudanças climáticas e impactos da inteligência artificial. Destaca-se o papel das redes sociais como principal fonte de informação, bem como a percepção generalizada de que as fake news represen tam uma ameaça relevante à estabilidade democrática, com incidência particular mente elevada em Brasil e Portugal.
Do ponto de vista metodo lógico e institucional, o Barômetro da Lusofonia vai além de uma pesquisa de opinião convencional. Ao investigar tanto problemas internos quanto os fluxos culturais, as aspirações migratórias e os vínculos identitários entre os países, o estudo cria uma base pioneira para análises comparativas, políticas públicas informadas por evidências e cooperação multilateral no âmbito da CPLP. Os resultados publicados apontam para múltiplos caminhos de aprofundamento científico. Entre eles, desta cam-se: a) a construção de uma série histórica bienal, permitindo acompanhar mudanças nas percepções sociais, políticas e culturais ao longo do tempo; b) análises multinível e comparativas, explorando diferenças intra e interpaíses em temas como democracia, desigualdade, migração e identidade cultural; c) estudos aplicados voltados ao desenho e avaliação de políticas públicas, especialmente nas áreas de saúde, educação, emprego, cultura e mobilidade internacional; d) integração dos dados do Barômetro com indicadores objetivos (IDH, Gini, dados educacionais e de mercado de trabalho), fortalecendo análises causais e explicativas; e e) ampliação do diálogo com universidades e centros de pesquisa, estimulando teses, dissertações, artigos e relatórios técnicos.
Por fim, o Barômetro da Lusofonia é um instrumento estratégico de produção de conhecimento, diálogo político e cooperação internacional. Em tempos de incerteza e desconfiança com a democracia, oferece um retrato rigoroso do presente e um alicerce sólido para pensar o futuro das sociedades que compartilham a língua portuguesa.
Ernani Carvalho (UFPE), professor titular da UFPE, coordenador do Praetor (Grupo de Estudos sobre Poder Judiciário, Política e Sociedade) e bolsista de produtividade do CNPq
Dalson Figueiredo (UFPE) , professor associado, atual coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFPE e bolsista de produtividade do CNPq