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Poesia visual sertaneja

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Poesia visual sertaneja
O Cais do Sertão recebe o lançamento do livro Sertão de Lembranças’, do fotógrafo José Afonso Jr., que busca retratar a memória de famílias do Pajeú com imagens que dialogam com poesias
Eu devia ter tirado mais fotos de quando você estava comigo’. A frase é do cantor Bad Bunny, na música “DTMF” (sigla para Debí Tirar Más Fotos), mas o sentimento é de qualquer um que já olhou para uma fotografia antiga e sentiu falta de um tempo, de um lugar ou de alguém. É dessa universalidade que surgiu o livro Sertão de Lembranças, do fotógrafo e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), José Afonso Jr. A publicação, que será lançada amanhã, às 19h, no Cais do Sertão, no Bairro do Recife, nasceu de um mergulho pelas histórias guardadas nas fotografias familiares no Sertão do Pajeú.
Entre 2021 a 2024, o autor percorreu a região em uma pesquisa visual que entrelaça três eixos: as fotografias familiares, a noção de território e a tradição poética do Pajeú. O resultado é um livro onde texto e imagem se ampliam mutuamente, criando novos sentidos poéticos para a lembrança. “Nós temos cinco sentidos físicos, mas temos um sentido imaterial: o sentido da lembrança. É o sexto sentido”, explica José Afonso. Não por acaso, voltar ao Sertão do Pajeú foi também reencontrar as memórias de infância ao lado do pai, veterinário que fazia campanhas de vacinação na região e levava a família junto.
A primeira vez que retornou já adulto foi em 1996, quando fez alguns registros da zona rural onde se hospedava. Ele voltou mais de 20 anos depois, e, desta vez, observou algo que antes lhe havia escapado: a delicada relação entre as imagens penduradas nas paredes e as histórias que elas contam. Ao invés de fazer uma interpretação acadêmica, optou por um caminho diferente. Pegou as fotos e as colocou nas mãos de poetas para que criassem poemas a partir delas. “Durante o processo, percebi que a memória das famílias está nas mãos das mulheres. São elas que organizam os álbuns, sabem os nomes e contam as histórias”, diz.
Para dar voz a essa dimensão feminina da memória, José Afonso convidou a poetisa Mariana Véras. Diferente da tradição local, na qual um mote engatilha a criação dos versos, ela recebeu liberdade poética para criar a partir das imagens, chegando a 27 poemas. Em uma via de mão dupla, também houve momentos em que o fotógrafo buscou equivalências para a poesia nas imagens. “Fez todo sentido que essa relação entre a imagem e o feminino fosse elaborada por uma poetisa”, afirma ele. Além de Mariana, o livro conta com três poemas de Leonardo Bastião, agricultor aposentado e poeta iletrado.
Em meio às transformações culturais, geográficas e políticas que vêm descaracterizando os lugares e as relações que nos constituem, José Afonso aposta na memória como forma de resistência. “É fundamental não só como política pública, mas em todas as formas de expressão artística: cinema, literatura, música, dança e artes visuais”, reforça. É um caminho que o cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho tem trilhado, em filmes como Aquarius, Retratos Fantasmas e O Agente Secreto. Na fotografia, porém, a memória não está apenas nas telonas, mas também nas paredes das casas. “Quando você coloca uma foto na parede, está a tirando de um lugar e a coloca em outro de maior importância. Você está a monumentalizando”, explica.
Parte do material pode ser conferido no site da pesquisa: https:// sertaodelembrancas.com/ que contém diversos materiais. Lá pode ser conferida uma galeria virtual de fotografias combinadas com poemas, textos derivados da pesquisa que foram apresentados em congressos acadêmicos, além dos relatórios, escritos em forma de dissertação.
Há ainda um vídeo de 10 minutos, com acessibilidade onde o fotógrafo e professor apresenta a concepção do processo criativo da pesquisa que gerou o livro.