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Polarização afetiva aumenta interesse dos brasileiros por temas de política externa
Sentimentos podem estruturar o engajamento das massas em relação a temas internacionais no debate político
Por Eliza Brito
A polarização afetiva influencia a visão sobre política externa dos brasileiros. Quanto maior a distância afetiva em relação a líderes políticos, maior a probabilidade de os indivíduos adotarem posições mais intensas e diretas em temas internacionais. A constatação foi detalhada na tese de doutorado “Quais os Efeitos da Polarização Afetiva nas Atitudes de Política Externa?”, de Vanessa Horacio Lira, defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em setembro de 2025. O trabalho foi orientado pela professora Nara de Carvalho Pavão.
No mês de agosto de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a imposição de uma taxação abusiva a alguns produtos brasileiros, episódio que ficou conhecido como Tarifaço. O evento aconteceu durante a realização da pesquisa, dessa forma, a pesquisadora conseguiu capturar, em tempo real, como os indivíduos percebiam e reagiam a um evento de política externa em curso. “Evidenciando, inclusive, que uma parcela significativa dos respondentes do experimento declarou estar bem-informada sobre o tema, independentemente de sua orientação política”, enfatizou Vanessa. O fato ajudou a demonstrar que a política externa deixou de ser um domínio predominantemente técnico e restrito às elites e que a polarização afetiva estrutura o engajamento das massas com temas internacionais.
O trabalho também constatou que homens e indivíduos com maior escolaridade tendem a se expressar mais sobre política externa, enquanto indivíduos mais velhos e mais escolarizados apresentam opiniões mais intensas. Além disso, em contraste com expectativas consolidadas na literatura, variáveis como patriotismo, nacionalismo e partidarismo não apresentam efeitos estatisticamente significativos, indicando que a polarização afetiva opera de maneira relativamente independente dessas disposições tradicionais.
O objetivo de Vanessa com o trabalho foi compreender como as atitudes de política externa são formadas a partir das massas, em um contexto de crescente polarização política no Brasil, mais especificamente a partir de 2018. O período foi escolhido por marcar a intensificação da polarização política no país e a sua transformação em uma polarização do tipo afetiva. “A partir desse momento, elites políticas passaram a explorar com maior frequência temas de política externa como instrumentos de mobilização eleitoral, enviando sinais claros de suas preferências às massas”, esclareceu a pesquisadora.
ESTRATÉGIA - A polarização afetiva é aquela que se manifesta, principalmente, por meio de sentimentos, indo além das diferenças ideológicas. “As pessoas passam a gostar cada vez mais do grupo político com o qual se identificam (in-group) e a rejeitar de forma crescente o grupo adversário (out-group). Esse processo envolve um forte senso de pertencimento, que torna a identidade política central para o indivíduo e transforma a política em uma relação marcada por afetos, como simpatia, antipatia e animosidade entre grupos”, explicou a pesquisadora.
Para Vanessa, a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, representou uma ruptura com padrões anteriores ao associar temas internacionais a divisões partidárias e identitárias. A estratégia foi baseada na lógica do apelo afetivo, por isso a manutenção de uma agenda fortemente ideologizada, marcada por críticas ao multilateralismo, ao “globalismo” e ao ambientalismo, além da valorização de um nacionalismo de matriz religiosa e anticomunista.
“No governo seguinte, a partir de 2022, a política externa de Luiz Inácio Lula da Silva buscou diferenciar-se, retomando o multilateralismo, a cooperação Sul-Sul e a diplomacia presidencial, com ênfase na agenda ambiental e na mediação internacional. Contudo, diante de custos domésticos e eleitorais, esse protagonismo foi progressivamente moderado, reduzindo a centralidade da política externa na agenda pública até o Tarifaço de Donald Trump, que contribuiu para a recuperação da popularidade do presidente [Lula] ao reativar uma narrativa de confronto externo”, explicou.
METODOLOGIA - A pesquisadora explicou que foram utilizadas duas estratégias empíricas quantitativas complementares para a realização do trabalho. Uma abordagem observacional baseada em pesquisas de opinião existentes e um experimento original randomizado pré-registrado. “Na estratégia observacional, analisamos dados secundários de surveys [pesquisas] consolidados (O Brasil, as Américas e o Mundo, Lapop, Latinobarômetro e Pew Research Center) para testar a associação entre polarização afetiva e dois índices centrais: expressão e intensidade das atitudes em política externa. Em seguida, para avaliar relações causais, conduzimos um experimento randomizado pré-registrado com aproximadamente 2.000 respondentes, aplicado on-line”, detalhou.
O experimento consiste em um jogo de confiança, no qual os participantes são aleatoriamente atribuídos a uma interação positiva ou negativa com um partidário do grupo oposto (out-partisan), com o objetivo de ativar a polarização afetiva nos participantes da pesquisa. Antes e depois do tratamento, os participantes responderam um questionário que buscou medir suas atitudes em política externa. A pesquisadora enfatizou que a aplicação desse desenho experimental é ainda inédita no contexto brasileiro, e a escolha desse método justificou-se pela sua validação na literatura internacional e por sua capacidade de isolar o efeito causal da polarização afetiva sobre as atitudes de política externa.
Para Vanessa, a tese também inova ao demonstrar que a polarização afetiva não se limita a influenciar as opiniões dos brasileiros apenas sobre temas tradicionais da política doméstica, como segurança pública, saúde ou educação. Ela influencia no posicionamento das massas em questões mais complexas, que poderiam ser percebidas como distantes da vida do cidadão comum, como a política externa. “Os resultados mostram não apenas que os indivíduos se interessam por política externa, como também que a polarização afetiva incide diretamente sobre a forma como os brasileiros percebem e se posicionam em relação às questões internacionais”, finalizou.
Mais informações
Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFPE
(81) 2126.8283
ppgcp@ufpe.br
Vanessa Horacio Lira
vanessaliraa@gmail.com