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Fortalecendo a agroecologia: o apoio da UFPE às mulheres rurais

Especial: mulheres rurais na agroecologia

A mulher rural desempenha um papel fundamental na sociedade, sendo uma peça-chave para garantir a segurança alimentar, a preservação dos recursos naturais e o fortalecimento das economias locais. Com sua atuação em atividades agrícolas e manejo sustentável da terra, elas também são responsáveis pela transmissão de saberes tradicionais que perpetuam práticas produtivas sustentáveis e práticas culturais. Entretanto, essas mulheres enfrentam desafios significativos, como a falta de acesso à terra, crédito e tecnologia. Além disso, sofrem com a dupla jornada, dividindo-se entre as responsabilidades da lavoura e as domésticas, sobrecarregando-se e agravando seu cansaço. Outro problema recorrente é a invisibilidade do seu trabalho, o que dificulta o reconhecimento de sua importância no desenvolvimento rural e impede o avanço de políticas públicas que promovam sua autonomia.

Diante dessas dificuldades, mais intensas especialmente nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, a professora e doutora em Serviço Social Evelyne Medeiros liderou um projeto de extensão  voltado à promoção da soberania alimentar e ao combate à fome. O projeto "Universidade e Movimentos Sociais pela Soberania Alimentar", realizado com o apoio do Movimento Camponês Popular (MCP), teve como principal objetivo promover vivências, aprendizados e trocas de saberes entre a universidade e os movimentos populares, focando na defesa dos direitos humanos, especialmente no que diz respeito à soberania alimentar e ao combate à fome. O fortalecimento e a articulação de diversas iniciativas voltadas para esse fim, incluindo políticas públicas, sociais e ações dos próprios movimentos, são fundamentais, especialmente em Recife e na região metropolitana, mas também no interior do estado.

 

(Equipe do projeto, 2023)

Rodas de conversa com comunidades quilombolas, indígenas e camponesas

 

No decorrer de suas atividades, o projeto realizou várias ações com o intuito de criar uma rede pernambucana de educadores populares em prol da soberania alimentar. Uma das iniciativas de destaque foi a criação de um curso de formação voltado para educadores populares, em parceria com a Universidade Federal Rural de Pernambuco, que incluiu cinco módulos de formação e envolveu cerca de 50 participantes. Além disso, em colaboração com o MCP, foram organizados o Seminário Nacional e o Seminário Estadual de Agrobiodiversidade e Sementes Crioulas. Esses eventos possibilitaram a realização de debates, encontros, formações, cursos e oficinas sobre o tema. Graças à receptividade da comunidade, existe a expectativa de que, no futuro, novas ações sejam implementadas para consolidar a rede de educadores populares em Pernambuco.

 

(Equipe do projeto, 2024)

Card do curso “Educadoras/es Populares pela Soberania Alimentar”

 

Outro parceiro importante nesta causa é o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), uma organização de alcance nacional que participa ativamente de ações como a Marcha das Margaridas e está vinculada a diversas entidades, como o Fórum Pernambucano de Mulheres e sindicatos rurais. De acordo com a professora Evelyne, mesmo com o papel significativo dessas mulheres na luta contra a fome e pela soberania alimentar, estudos apontam que muitas delas ainda vivem em condições de extrema desigualdade social, sendo que aproximadamente 60% das pessoas em situação de fome crônica no mundo são mulheres e meninas. 

Ainda segundo a professora, um dos fatores que se fazem relevantes nesta pauta é o da diversidade genética dos alimentos, essencial para que a agricultura consiga responder às mudanças climáticas e crises ambientais. No entanto, observa-se atualmente uma perda significativa dessa diversidade, o que torna ainda mais urgente a preservação das variedades locais. Os movimentos sociais têm trabalhado nesse sentido, promovendo debates e formações sobre a importância de proteger os recursos naturais, como terra e água, e as implicações das patentes e dos monopólios sobre os alimentos.

Assim, esse projeto de extensão, com duração de um ano, estabeleceu uma rede de intercâmbio de conhecimentos entre a UFPE e os movimentos populares voltados para a defesa dos direitos humanos, fortalecendo iniciativas locais em comunidades camponesas, quilombolas e indígenas, bem como em grupos de mulheres e jovens ligados à agricultura familiar. Dessa maneira, ele buscou enfrentar os desafios impostos pela produção agropecuária de grandes latifúndios (que frequentemente resultam em impactos ambientais negativos e concentram a posse de terras, prejudicando o desenvolvimento sustentável), bem como pelo monopólio da produção de alimentos por algumas grandes empresas, que compromete a autonomia de comunidades e impede a conquista da soberania alimentar.

Também trabalhando no sentido de fortalecer a troca de conhecimentos em questões relacionadas à agroecologia,  o projeto “Ampliando ações comunitárias em agroecologia, gênero e direitos humanos”, liderado pelo professor Benedito Medrado, visa criar processos educativos e de comunicação social que abordem temas essenciais ao avanço da agroecologia e dos direitos humanos sob uma ótica feminista e de gênero, além de facilitar a interação entre agricultores(as) e consumidores(as), incentivando reflexões sobre a importância de cuidar do meio ambiente e do papel da agricultura familiar na promoção da soberania alimentar e preservação da natureza, com uma visão ampliada dos direitos humanos. Essas iniciativas ocorrem no Espaço Agroecológico da Várzea (EAV) em Recife, especialmente no Espaço Marielle Franco, na barraca Paulo Freire e no Café com Vanete, sendo este último um espaço que homenageia uma trabalhadora rural que é feminista e também uma liderança na América Latina. 

O EAV se estabeleceu como uma iniciativa de resistência popular, resultante de uma parceria afetiva e solidária voltada para a construção coletiva de estratégias que promovem o consumo sustentável e a comercialização de produtos agroecológicos. Essa ação está alinhada a uma abordagem crítica de direitos humanos, conectando os moradores do Bairro da Várzea com agricultores familiares de áreas rurais do estado, especialmente da Zona da Mata de Pernambuco. A iniciativa busca atingir a comunidade acadêmica, especialmente da graduação e pós-graduação de Psicologia da UFPE, departamento responsável pelo projeto, e áreas afins, além dos frequentadores do EAV. 

Com início em março de 2018, o projeto “Ampliando ações comunitárias em agroecologia, gênero e direitos humanos” promove feiras que acontecem todo sábado, na Praça da Várzea, das 6h30 até as 10h, e conta com a participação de agricultores familiares e consumidores. Além da comercialização de produtos agroecológicos, há também a “Barraca PF” (Paulo Freire), um espaço político-pedagógico que, além de homenagear Paulo Freire, distribui folhetos e materiais educativos sobre feminismo, agroecologia, igualdade racial, direitos LGBT e outros temas. Há ainda rodas de diálogo abertas ao público geral sobre agroecologia e direitos humanos, bem como atividades político-culturais, com artistas locais abordando assuntos relacionados a essas temáticas. Os intercâmbios entre agricultores e consumidores também incluem visitas às unidades de produção alimentar, visando fortalecer a conexão entre campo e cidade. 

 

(Espaço Agroecológico da Várzea, s/d)

 

Atividades do Espaço Agroecológico da Várzea

 

Esses projetos são um excelente exemplo de como a universidade e a comunidade acadêmica contribuem para promover iniciativas de combate à fome, de forma sustentável, crítica e levando em conta aspectos muitas vezes negligenciados, como os desafios enfrentados pelas mulheres rurais. O diálogo campo-cidade e a sensibilização junto aos consumidores são essenciais para garantir a soberania alimentar, e a UFPE tem se posicionado para que essas práticas aconteçam e se ampliem.

 

Para saber mais:

Instagram: @agroecovarzea

 

 
 
 
 
 

 

 
 
Date of last modification: 06/11/2024, 11:44