Asset Publisher Asset Publisher

Back

TV GUARARAPES - Traumas dentários viram sorrisos pelas mãos de professores e alunos da UFPE

10.08.25

Ao descer uma ladeira pedalando sua bicicleta, José Willams dos Santos Freitas, 18 anos, sofreu uma queda que deixou marcas em seu corpo e causou a perda de quatro dentes. Morador do município de Vitória de Santo Antão, na Zona da Mata pernambucana, o jovem está em tratamento odontológico para ter o sorriso de volta.

Ele é um dos pacientes beneficiados pelo atendimento gratuito oferecido por professores e alunos do curso de odontologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) através do projeto de extensão Do Trauma ao Sorriso. Os atendimentos acontecem toda segunda-feira, no horário das 13h às 17h, por demanda espontânea.

Considerado um dos mais sérios problemas de saúde pública devido à frequência, ao impacto na produtividade econômica e à qualidade de vida dos pacientes, o traumatismo dentário afeta a população em todas as faixas etárias. No entanto, crianças, adolescentes e jovens adultos costumam ser os mais atingidos.

Para minimizar os impactos e as consequências desses traumas, o projeto promove ações de prevenção e tratamento das lesões dentárias traumáticas. O público alvo são pessoas negras (pretas e pardas), quilombolas, ciganas, indígenas, trans (transexuais, transgêneros e travestis) e pessoas com deficiência ou idosas.

Também podem ser atendidos pelo projeto docentes, estudantes universitários, técnicos, gestores e pessoas contratadas da UFPE que também sofreram lesões dentárias. Os pacientes atendidos geralmente são vítimas de acidentes automobilísticos ou de motos, queda da própria altura, de bicicletas, de skates ou sofreram violência doméstica. 

A agricultora Maria da Conceição Santos, mãe de José Willams, estava preocupada tentando encontrar uma maneira de devolver o sorriso ao filho após a queda de bicicleta, ocorrida em julho. O jovem teve ferimentos sérios no rosto, sobretudo na boca, e também no braço esquerdo. Um cliente dela foi quem indicou o projeto da UFPE.

“Sou feirante e vendo lá na feirinha de orgânicos no bairro do Rosarinho, no Recife, e foi um cliente meu quem me falou do trabalho da professora Elvia. Levei meu filho lá e ele foi muito bem atendido por toda equipe. O caso dele foi muito sério e seria um tratamento muito caro. Eu e meu marido não teríamos condições de pagar de jeito nenhum”, contou Conceição.

Os atendimentos do projeto Do Trauma ao Sorriso são realizados no Núcleo de Apoio e Pronto Atendimento do Curso de Odontologia da UFPE (Napa). Os alunos de graduação do curso de odontologia da UFPE atendem os pacientes sob a tutoria da coordenadora do projeto, professora doutora Elvia Barros.

Williams preferiu não mostrar como estão seu rosto e seu sorriso enquanto ainda está em tratamento. Mas a família dele já é muito grata à UFPE. “Meu filho tinha os dentes um pouco tortos e por muito tempo usou aparelhos para corrigir. Depois que ele estava com os dentes perfeitos sofreu esse acidente. Em breve ele estará alegre e sorrindo novamente”, disse a mãe.

Dona Maria da Conceição ressaltou que antes de chegar ao tratamento no projeto Do Trauma ao Sorriso o filho, logo após o acidente, foi atendido no Hospital João Murilo, em Vitória, e depois no Hospital da Restauração, no Recife. “Ele sofreu cortes na língua e no céu da boca. Vi a hora dele cair numa depressão, mas, graças a Deus, está dando tudo certo”, destacou.

Ex-aluno do curso de odontologia, o hoje cirurgião-dentista André Souza, 26 anos, também foi atendido pelo projeto. “Eu tinha um problema em um dos meus dentes causado por uma queda na infância. Fui atendido no projeto, passei por cirurgia, fiz canal e reconstrução do dente. Se eu fosse fazer tudo isso particular ficaria muito caro. O projeto me salvou”, contou André.

Projeto atende pacientes de todas regiões do estado
Além de professora do curso de odontologia e doutora em endodontia, Elvia Barros é a coordenadora do projeto de extensão Do Trauma ou Sorriso. Toda segunda-feira, é ela quem comanda a equipe de estudantes que atendem os pacientes. Crianças, adolescentes, adultos e idosos podem ser atendidos pelo projeto. Eles podem vir de qualquer lugar também.

Profissionais de outras especialidades da odontologia e até mesmo parceiros externos também trabalham para oferecer um tratamento de qualidade e gratuito a quem procura o projeto. Os docentes da UFPE são especialistas em odontopediatria, periodontia, dentística, ortodontia, endodontia e cirurgia buco maxilo facial.

“O projeto existe desde 2017 e atendemos pessoas não só do Grande Recife, mas de todo estado. Temos pacientes do Agreste e do Sertão. Os pacientes que atendemos sofreram traumatismos por diversos fatores, entre eles queda em jogo de futebol, queda em toboáguas e mulheres vítimas de violência doméstica”, explicou Elvia.

O tempo de tratamento para cada paciente varia de acordo com o trauma que ele sofreu. Alguns são de longa duração. “Nós procuramos sempre atender os pacientes da melhor maneira possível e fazendo com que diminua o trauma psicológico. Muitas crianças e adolescentes ficam sem querer ir para escola”, completou a coordenadora do projeto.

A professora Elvia Barros pede que pacientes que foram atendidos pelo projeto nos anos de 2017, 2018 e 2019 e não tiveram seus tratamentos finalizados procurem o Napa, na UFPE. “Alguns pacientes que foram atendidos antes da pandemia deixaram de comparecer às consultas. Muitos ainda estavam em atendimento e outros em acompanhamento. É importante que nos procurem”, ressaltou.

Professores destacam importância do tratamento das lesões
Muito mais que devolver os dentes e, consequentemente, o sorriso aos pacientes, os professores e alunos que fazem parte do projeto Do Trauma ao Sorriso têm ainda a missão de restaurar a autoestima de quem passou por um processo de lesão dentária traumática. Não ter os dentes completos pode trazer consequências psicológicas para muita gente.

A professora e doutora Alice Kelly Barreira, que ensina a disciplina de odontopediatria no curso de odontologia da UFPE, sabe bem disso. Ela colabora no projeto acompanhando crianças e adolescentes que sofreram algum tipo de traumatismo na dentição decídua, os conhecidos dentes de leite.

“O trauma na dentição decídua é considerado um problema de saúde pública, porque é altamente prevalente, gera consequências graves e deixa sequelas. Causa também um impacto grande na qualidade de vida dessas crianças e adolescentes, sobretudo impacto psicológico e social. Esses acidentes causam dores, sangramentos e o medo de problemas estéticos”, explicou a professora.

Também professor da UFPE, doutor em dentística e participante do projeto Do Trauma ao Sorriso, Cláudio Heliomar fala da relevância do serviço prestado à população. “Participar do projeto é estar na linha de frente de um cuidado que devolve função, estética e autoestima em momentos tão delicados para a pessoa que passa por essa situação”, pontuou.

Ele citou um atendimento no qual o paciente, um adolescente, e os pais dele estavam muito abalados. “Esse adolescente chegou com fraturas nos incisivos centrais superiores após um trauma durante uma brincadeira com colegas. A perda repentina da integridade estética desses dentes abalou a todos. A reabilitação devolveu não só a estética e a função, mas também a confiança, a alegria e a possibilidade de não se ver marcado pela história do trauma”.

Mais informações
Núcleo de Apoio e Pronto-Atendimento (Napa)
(81) 2126-8830

Link da matéria

Date of last modification: 12/08/2025, 18:44