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Jornal do Commercio- Relato de uma traição
Relato de uma traição
Artigo
Página 38

Relato de uma traição
O professor e reitor da UFPE, Alfre do Gomes, acaba de publicar uma obra que conta a história de uma promessa não cumprida. Escrito como requisito para a obtenção do grau de Professor Titular da Universidade Federal de Pernambuco, intitulado “UNIVERSIDADE PÚBLICA FEDERAL: AUTO NOMIA CAPTURADA, DE PENDÊNCIA POLÍTICA E FINANCEIRA”. Alfredo dedicou boa parte de sua vida universitária aos estudos das políticas públicas para o Ensino Superior, e este livro demonstra a versatilidade e o conhecimento de causa de que é proprietário.
De que “promessa” estamos falando? A promessa original da Universidade moderna, surgida em Berlim em 1810, e que teve W. Humboldt como autor de seu Memorando. Ali, pretendia-se livrar a Universidade de duas tutelas: a da Igreja (policiamento das almas) e a do Estado (formação da bu rocracia) e aceitar, apenas, a tutela da Ciência, vetor da liberdade e da autodetermi nação, tanto social como in dividual. O problema, entre nós, brasileiros, é que aquela promessa da modernidade universitária nunca foi cumprida, embora seja sempre invocada – em contextos políticos diversos- para justificar um ideal de autonomia acadêmica e institucional, na verdade, impedida por mecanismos de clientelismo político e daquilo que Alfredo chama de “balcanização” (a fragmentação de recursos sujeitos sempre a negociações parceladas), já iniciado depois da transição democrática (1985): um modelo de tomada de decisão concentrado NO e PELO Estado, de inspiração cartorial, produzindo assimetrias institucionais que se refletem, sobretudo no instituto da autonomia universitária. Dependentes e geridas pelo “grupo no poder”, nossas Universidades nunca gozaram plenamente dos requi sitos da AUTONOMIA, e é a dependência política que mantém todas as outras formas de subordinação.
Utilizando-se de termos de inspiração habermasiana -autonomia substantiva e procedimental- a primeira voltada para a definição dos fins e valores e a segunda dirigida para os mecanismos de sua execução partilhada, esse importante estudo mostra que a captura da autonomia das Universidades Federais gera uma profunda contradição: de um lado o reconhecimento de sua relevância estratégica, social, técnica e cultural para o impulso necessário à vida democrática e republicana e, de outro, a subordinação aos interesses políticos e ideológicos do momento.
Cartografando a anatomia do sub-financiamento das nossas instituições federais com esclarecedores gráficos, a partir do governo de FHC e chegando até o atual (2025), passando pelo verdadeiro desastre que representou o Governo Bolsonaro, esse livro talvez seja mais do que a anatomia de um promessa deliberadamente descumprida: seja a história de uma “traição”: aquela em que os próprios gestores públicos que deveriam zelar pela principal instituição que produz saber instituinte, inovação tecnológica e criticidade ativa, necessários à vida republicana, sabotam tais instituições com modelos intransparentes de financiamento. Uma traição em que somos, todos nós, os traidores e os traídos!
É a história dessa traição que esse livro conta.
Flávio Brayner, professor Emérito da UFPE