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Jornal do Commercio- IAHGP: um templo de memória da história

IAHGP: um templo de memória da história

Artigo 

Página 20

IAHGP: um templo de memória da história

Uma alegoria cívica perscruta a nossa sensibilidade pernambucana e vivifica o nosso espirito, provendo a elevada honraria que o Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano, fundado a 28.01.1862, concedo-nos, quando nele colocamo-nos como novos Membros Efetivos do Instituto, aprendizes devotados e permanentes aprendizes. No feitio dessa honraria, concelebramos, com gratidão, o ingresso no templo da memória de Pernambuco. Em tempo uno também ingressam Joaquim Pereira da Silva, Jobson Figueirêdo Alves, José Henrique Wanderley Filho e Ricardo vander Linden Vasconce los Coelho.

Bem é certo adquirirmos uma narração profunda mente intima do significado de integrarmos o quadro as sociativo do IAHGP, quando nessa alegoria, onde a História é “a transfiguração do homem”, incursionamos nos saberes de um passado guerreiro, vindo ao encontro dos heróis das Revoluções de 1817 e 1824.

Cervantes expressou em seu monumental “Dom Quixote” que “a história é êmula do tempo, depósito de ações, testemunha do passado e aviso do presente, advertência do porvir”. Diante do passado, reavivado em seus rumos pelas lições imorredouras que oferece, conduzimo-nos pela Rua do Hospício, cujo nome teve origem no Hospício dos Frades Esmoleres, em demanda e destino ao casarão patriarcal e azul de n. 130. Nele somos todos chegados pelos acenos de identidade cultural e afetiva que une-nos, visceralmente, ao compromisso que orientou a criação, em 28.01.1862, do Instituto, guardião intelectual e venerável das instâncias preliminares formadoras de pernambucanidade.

No Instituto, sinonímia de todo um sagrado histórico, lugar próprio de alumbramento das perenidades; simbolizadas, inclusive, pela porta larga de sua entrada, devamos renovar nossas confissões de amor por Recife e por Pernambuco. Devotamo-nos com o Recife, nosso chão telúrico de origem ou por afetos, a velha “ribeira do recife dos navios” da Ilha de Antônio Vaz.

O Recife noturno, com os guindastes do porto que “atrás do arruado ficou”, assombrando Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira, o poeta integrante do movimento modernista de 1922, onde ali a alma da cidade permanente indelével e incólume. O Recife de tardes de ruas tumultuosas de Joaquim Cardoso, “romântico do crepúsculo das pontes de e da beleza católica do rio”. O Recife diuturno de Carlos Pena Filho, que “se estende por sítios nunca pensados, dos subúrbios coloridos aos horizontes molhados”. O Recife flagrado por Mauro Mota, presenciando várias ressurreições e pressentindo coisas extraordinárias, que mantendo uma fascinante relação íntima com o seu passado. O Recife que encontrou seus melhores cronistas do passado como Mário Sette e José Lucilo Ramos Varejão. Cronistas que narraram os costumes locais, episódios urbanos, o cotidiano com sua critica social e com os seus personagens. Sobretudo Gilberto Freire, pelos seus textos que dialogaram com a sociologia da cidade e a experiencia recifense em suas descrições e memórias.

Devotamo-nos com Pernambuco, instrumento permanente da História mais democrática, cujo patrimônio histórico sem pre foi a melhor prospecção dos grandes ideais da nação, sempre vestido da audácia dos sonhos, onde em seus gestos guerreiros, encontra-se a sua alma heroica. Pernambuco insurreto, cujo sentimento de ser pernambucano nasceu 72 anos antes do sentimento de ser brasileiro quando há dois séculos, em 6.03.1817, surgiu uma nação chamada Pernambuco. A República que buscava independência da Coroa Portuguesa e que durou apenas 75 dias. Pernambuco do movimento abolicionistas de Joaquim Nabuco. 

Pernambuco republicano, da Marim dos Caetés, quando o primeiro grito da República no pais foi dado em Olinda, pelo sargento-mor Bernardo Vieira de Melo, em 10.11.1710, antes mesmo da Independência americana de 1776 e da Revolução francesa de 1789. Nesse devotamento, temos a sagração do Recife e de Pernambuco, resistentes das revoluções libertárias. Recife feito da tenacidade da pedra furada, na intrepidez das águas escavando os arrecifes do seu porto natural, como a buscar a liquidez do horizonte de bruçado sobre o mar, com ele se confundindo. Pedra furada ou “Paranã-Puka”, como os índios caetés a chamavam, a significar a luta febril e permanente de pernambucanidade.

José Antônio Gonçalves de Melo, que presidiu o IAHGPE por trinta e sete anos, em suas pesquisas históricas, dissecou em “Tempo dos Flamengos” o ideário de um Pernambuco destemido, capitulando os holandeses no Campo do Taborda, quando o general Francisco Barreto de Menezes recebe do invasor dominado, as chaves da cidade livre.

O Instituto tem seu Museu instalado em 1866, com importante acervo, guarnecendo documentos e relíquias de nosso passa do histórico. É impregnado de eternidade, como a casa do avô de Manuel Bandeira. Uma eternidade acalenta da “nos longes da noite” por um sino, aprofundada nas insulares paisagens dos subúrbios não mais distantes pela geografia urbana atual da cidade. Eternidade revivida a cada dia nos crepúsculos da Rua da Aurora, “baixando da solidão do céu na alegria da terra” e pressentida nas pontes compridas e erguidas sobre o Capibaribe.

Aprendemos essa cida de rebelde, com “os seios entumecidos do germe de muitos heróis” que Tobias Barreto reverenciou e este Estado, autonomista e liberal, mártir em Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, com seu legado de nacionalidade. Disso lembrou Nilo Pereira, afirmando: “O riacho do Ipiranga recolheu a cenografia da Independência, o Capibaribe ficou com o sangue das vítimas da liberdade”. Rio Capibaribe que em silêncio carrega sua fecundidade pobre de terra negra”, na visão poética de João Cabral de Melo Neto. Um “cão sem plumas”, nada sabendo da chuva azul, quando “a cidade é passada pelo rio como uma rua ou quando entre a paisagem, o rio flui “como uma espada de líquido espesso, como um cão humilde e espesso”.

Por esse aprendizado, poético e histórico, em titulação de membros do Instituto, todos temos a arquitetura do olhar do passado, conduzi-nos a novos amanheceres. Amanheceres que desponta ram da Cruz do Patrão, ao sul do Forte do Brum, iluminando o futuro. Erguida em tempos coloniais, monumento histórico como um ponto liminar entre terra e mar.

Como é certo que a história é a ciência das coisas que não se repetem, como disse Paul Valéry, igualmente é certo tratarmos a história como o referencial do presente, estrategicamente nutriente do porvir, segundo um tempo tríbio gilbertiano, onde passado, presente e futuro servem de sagração aos atributos essenciais de uma história permanente e em vigília de nossos valores culturais.

Honra-nos, em liturgia do momento-instante, compartilharmos com os eminentes pares já integrantes, o compromisso de dignificar a presença sempre memorável de tantos outros associados pioneiros, por seus estudos e pesquisas. Historiadores e escritores como o monsenhor Francisco Muniz Tavares (1793-1876), seu primeiro presidente; José Higino Duarte Pereira (1847-1901), Francisco Augusto Pereira da Costa (1851-1923), Alfredo de Carvalho (1870-1916), Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho (1897-2000) e José Antônio Gonçalves de Mello (1916-2002).

Muniz Tavares, doutor em Teologia pela Universidade de Paris, é o autor da “História da Revolução de Pernambuco em 1817”, publicada originalmente em 1840, cujos exemplares restantes deixou em testamento para o Instituto. Essa consagrada obra teve sua 5ª edição em 2007, por ocasião das celebrações do bicentenário da Revolução Pernambucana, com apresentação de George Cabral de Souza, presidente atual do IAHGPE e notas de Manoel Oliveira Lima. Duarte Pereira, deputa do constituinte, ministro e magistrado, foi ministro da Justiça no governo Floriano Peixoto (1892) e integrou o Supremo Tribunal Federal (1892-1897).

Pereira da Costa, au tor da monumental obra “Anais Pernambucanos” é o grande cronista do Instituto. Assinala-se o seguinte: “Não há pesquisa sobre os primeiros quatro séculos de história de Pernambuco que pos sa ser feita sem uma boa consulta aos escritos de Pereira da Costa. O trabalho incansável deste pesqui sador permitiu-lhe legar à posteridade uma das mais vultuosas obras de recolha e comentário de fontes primárias, algumas delas de saparecidas na voragem do tempo. Isso faz de Pereira da Costa quase uma fonte primária”.

Alfredo de Carvalho, folclorista e historiador, como escritor adotou vá rios pseudônimos. Como poliglota, traduziu importantes obras. Barbosa Lima Sobrinho, falecido aos 103 anos, induvidosamente uma das figuras mais icônicas do século passado. Presidiu a Associação Brasileira de Imprensa e foi deputado federal na Assembleia Constituinte de 1946.

Gonçalves de Mello, o maior estudioso da presença flamenga em Pernambuco, também autor do mais completo estudo sobre os judeus no Brasil, nos séculos XVI e XVII (“Gente da Nação Cristãos Novos e Judeus em Pernambuco - 1542-1654”) e de outras inúmeras obras.

Honra-nos reverenciar os primeiros membros do IAHGPE que se reuniram, então, nas dependências do Convento do Carmo e professar os mesmos ideá rios que os identificaram. Bem dizer que, na “Sociedade Arqueológica Pernambucana” (sua antiga denominação) foram vinte e sete fundadores, desta cando-se, porém, cinco deles como propoentes para a formação da associação: Joaquim Pires Machado Portela, Antônio Rangel Torres Bandeira, Salvador Henrique de Albuquerque, Antônio Vitrúvio Pinto Bandeira e Acioli de Vasconcelos e José Soares de Azevedo.

Importa, nesse percur so histórico, homenagear ex-presidentes do Instituto, referenciados nos contributos relevantes de: (i) José Luiz da Mota Menezes, arquiteto e pesquisador, apaixonado pela geografia urbana da cidade, seu casario, e seus lugares históricos; (ii) Silvio Amorim, advogado e escritor; (iii) Margarida Cantarelli, aclamada nova presidente da Academia Pernambucana de Letras, renomada jurista, especialista em Relações Internacionais e De sembargadora Emérita do Tribunal Federal Regional da 5ª Região.

De igual modo, cumpre homenagear dois notáveis Secretários-Perpétuos da instituição, Mário Melo e Reinaldo Carneiro Leão, que o sucedeu. Mário Carneiro do Rego Melo, his toriador, filólogo, poeta e jornalista, é o grande símbolo da imprensa pernambucana. Foi membro efetivo de 1909 a 1959. Durante cinquenta anos dedicou-se ao instituto com a mesma devoção de Carneiro Leão. Este, a seu turno, formado em Sociologia e Politica (UFPE) é considerado um dos maiores genealogistas do país.

Referencia maior ao atual presidente do Ins tituto, o professor George Felix Cabral de Souza, mestre em História pela UFPE, doutor em História pela Universidade de Salamanca na Espanha e com Pós-Doutorado pela “Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales”; acadêmico honorário da Academia Portuguesa da História e membro da Academia Pernambucana de Letras. Depois de presidir o IAHGPE por dois manda tos (2010-2011/2017-2019), retorna, merecidamente, como titular de muitos saberes.

Estejamos todos com prometidos com as ensinanças do Instituto como academia de memória. É o Instituto Histórico estadual mais antigo do país. Vida longa ao Instituto Arqueológico, a Casa de Pernambuco!

(Reprodução extraída de discurso do autor, em Sessão Magna de 28.01.26, comemorativa dos 164 anos de fundação do IAH GPE e dos 372 anos da Restauração Pernambucana, por ato de posse dos novos Associados Efetivos).

Date of last modification: 02/02/2026, 09:36