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Jornal do Commercio- Como o ambiente digital tem contribuído para a misoginia nas novas gerações
Como o ambiente digital tem contribuído para a misoginia nas novas gerações
Brasil
Página 11

Como o ambiente digital tem contribuído para a misoginia nas novas gerações
A internet é, na atualidade, um dos principais meios de socialização. E a ascensão de discursos de ódio contra mulheres no mundo digital preocupa não só por sua natureza violenta, mas também pela forma como eles chegam a crianças e adolescentes, contribuindo para a formação de uma sociedade cada vez mais misógina.
Esse foi o tema do segundo episódio do videocast Uma por Uma, do Sistema Jornal do Commercio de Co municação (SJCC). A jornalista Natalia Ribeiro, da Rá dio Jornal, juntamente com a produtora Júlia Lira, da TV Jornal, receberam especialistas no assunto para enriquecer a conversa.
MISOGINIA É UM PROBLEMA HISTÓRICO
O sentimento de ódio ou aversão às mulheres é o que caracteriza a misoginia. Trata-se de uma questão com raízes históricas profundas, que remontam desde as primeiras civilizações.
É exatamente por isso que as práticas misóginas são, ainda hoje, tão presentes na nossa sociedade, como explica a professora de Pedagogia Catarina Gonçalves, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE): “mulheres são historicamente violentadas e oprimidas, portanto, não se trata de um fenômeno recente”.
INTERNET É TERRENO FÉRTIL PARA A MISOGINIA
Todavia, as violências contra a mulher (no plural, por serem tantas), ganham novos formatos na contemporaneidade. A advogada e vice-presidente da Comissão de Direito e da Tecnologia da OAB/PE, Paloma Saldanha, pontua que o machismo, por já ser estrutural, “inevitavelmente vai ser reproduzido também no ambiente digital”.
Assim como fora da internet, o problema também tem vários graus e degraus dentro dela. Para exemplificar, Júlia Lira trouxe para a conversa o termo “machos fera”, o nicho da internet de conteúdos de interesse do universo masculino.
Antes de chegar ao discurso de ódio escancarado, os homens e meninos são comumente apresentados a pautas sobre treinos, mundo fitness, empreendedorismo e até espiritualidade, o que não constitui problema algum.
Entretanto, quanto mais inseridos nesse meio de homens falando para homens, mais fácil fica dos movimentos misóginos propagarem os ideais preconceituosos, principalmente quando o público é de jovens com personalidades ainda em formação.
Dentro da machosfera, há grupos que realmente concentram suas forças para “desumanizar as mulheres”, como explica Júlia. “Os Redpills, em alusão ao filme Matrix, são homens que acreditam que reforçar o papel de dominação do homem e da submissão da mulher é dever deles, numa linha contra as pautas progressistas da sociedade”.
E a empreitada é forte para propagar esses ideais. Eles diminuem aspectos físicos, intelectuais e sociais de outros homens, os quais eles chamam de “bluepills”, na tentativa de impor a superioridade de seu grupo e atrair novos adeptos.
EMPRESAS DE TECNOLOGIA TÊM PAPEL FUNDAMENTAL
Embora tudo isso aconteça na internet aberta, quase nada é feito por parte das Big Techs, em presas de tecnologia, para coibir. Na verdade, o que acontece é exatamente o contrário: “eles fazem isso porque as plataformas permitem. Esses conteúdos têm grande alcance, o que gera lucro para as em presas”, pontua Paloma.
Entretanto, as plataformas têm, sim, responsabilidade sobre o que está no ar. Em junho de 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) alterou o Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014) e instituiu que, a partir de denúncias dos próprios usuários, as empresas de vem retirar conteúdos que sejam danosos mesmo sem ordem judicial.
Mas Paloma reforça que o problema não é superficial e envolve a própria concepção do mundo digital: “se as plataformas digitais foram criadas por homens, elas existem para homens”. Isso implica num “design intencional para manipular e direcionar comportamentos de sociedades por meio do serviço oferecido”, acrescenta.
CRIANÇAS E ADOLESCENTES SÃO PRINCIPAL PONTO DE INTERESSE
Outro exemplo apresentado por Júlia foi da série “Adolescência”, da Netflix. A trama percorre o caso de um menino que, influenciado por discursos misóginos na internet, cometeu um grave crime de ódio contra uma colega de turma que não quis relacionar-se com ele. “A família (no seriado) não percebeu que a educação machista não vinha de casa”.
Catarina, que coordena o núcleo de estudos sobre violências escolares da UFPE, analisa o caso sob o ponto de vista da educação. Ela explica que a família é o primeiro espaço de socialização de um ser humano, seguido da escola. Nos últimos tempos, a internet emergiu como um terceiro laboratório de construção social.
São essas três esferas que vão ditar quem aquela pessoa em formação, ou seja, a criança, vai ser. Catarina lamenta que “nunca foi tão desafiador ser escola”, portanto, é dever de toda a sociedade, como participantes dessas esferas, de contribuir para uma educação positiva e que promova o respeito às mulheres. “Tem que ser todos por todas”.
Paloma, que também coordena projetos volun tários de educação digital na PlacaMãe.Org, acrescenta à fala da pedagoga que “o Estado não consegue estar em todos os es paços. Toda a sociedade precisa se mobilizar”.