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Diário de Pernambuco - Queda de Dilma poderia ter sido evitada?

Queda de Dilma poderia ter sido evitada?

Política 

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Queda de Dilma poderia ter sido evitada?

Especialistas analisam que 2º mandato poderia ter tido outro desfecho. Economia, corrupção e eleição acirrada tornaram cenário complexo

Dentro do vórtex especulativo que entornou os desdobramentos do impeachment de Dilma Rousseff em 2016, estava um importante questionamento – se poderia ter sido evitado. Embora o tema não tenha necessitado dos 10 anos que o separam de hoje para ser analisado sob essas lentes, o afastamento temporal provocou uma nova luz ao evento.

“A tempestade estava chegando e não houve a resiliência adequada para se proteger dela”, afirma o pesquisador da UFPE e cientista político, Bhreno Vieira, ao explicar que, em termos gerais, a janela para evitar o impeachment era “bastante estreita”. Segundo ele, havia condicionantes estruturais muito difíceis de reverter no curto prazo.

Ao Diario, Bhreno as organizou em dois eixos para explicar o cenário: a forte deterioração da economia – marcada pela crise econômica entre 2015 e 2016 – e a intensificação de escândalos de corrupção – como a Operação Lava Jato e os casos atrelados à Petrobras –, assim como fatores contingentes de outras ordens.

Além disso, o contexto era de “ressaca de uma eleição bastante acirrada”, destaca Vitor Pimenta, cientista político e doutorando da UFPR. O pesquisador observa que, em tese, existiam alternativas políticas que poderiam ter reduzido a probabilidade de uma ruptura institucional, sobretudo no campo da articulação com o Congresso, caracterizado por uma base parlamentar fragmentada e conservadora. “Considerando um ambiente já adverso, uma estratégia mais pragmática na eleição da presidência da Câmara poderia ter evitado o aprofundamento precoce do conflito com Eduardo Cunha”, pondera.

Os especialistas avaliam que as tensões entre o governo e o Congresso foram decisivas, especialmente no embate com Cunha, que acatou o pedido de impeachment. Paralelo ao quesito Cunha, também acontecia uma deterioração interna na relação com o vice-presidente Michel Temer (na época, PMDB), o que fragilizou ainda mais a sustentação política da presidente.

Dentre as ações que poderiam ter sido mais eficientes na tentativa de preservação de uma relação ‘minimamente funcional’ estava uma estratégia voltada a conter, ou administrar melhor, essas divergências “por meio de maior compartilhamento de poder, alinhamento mais consistente de agendas ou fortalecimento dos canais de diálogo”. “É importante ponderar que essas tensões não surgiram de forma isolada, estavam inseridas em um ambiente amplo de crise política, econômica e institucional, o que limita a possibilidade de afirmar que sua contenção seria suficiente para alterar o desfecho final”, analisa Pimenta. A ex-presidente acabou ficando “politicamente espremida”, perdendo o apoio em setores sociais que esperavam a continuidade de um projeto anterior, sem necessariamente conquistar de forma estável os grupos que defendiam uma mudança de rumo.

“A margem para evitar (o impeachment) era bastante estreita, exigia uma capacidade de reação política muito elevada. Por isso, hoje sabemos, à luz desses dez anos, que o processo foi, em larga medida, muito mais produto das condições da crise política e econômica do que de um fator jurídico”, explica Vieira.

Do lado da oposição, o especialista da UFPR analisa que também houve coordenação, com a oposição atuando tanto dentro quanto fora do Congresso, estimulando a mobilização social em larga escala e pressionando parlamentares indecisos: “o custo político de sustentar a base aumentou muito”.

Por fim, o pesquisador aponta que é possível dizer que uma articulação mais bem sucedida, sobretudo no início do mandato e na gestão da relação com a Câmara e o PMDB (atual MDB), poderia ter reduzido o risco de impeachment.

Date of last modification: 13/04/2026, 08:28