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Diário de Pernambuco- As estratégias para sobreviver à violência

As estratégias para sobreviver à violência

Vida Urbana 

Página 10

As estratégias para sobreviver à violência

Evitar ruas sem saída, desconfiar de corridas mal localizadas no mapa, can celar chamadas ao menor sinal de risco e reduzir o tempo parado são algumas das estra tégias adotadas por motoristas de aplicativo para tentar sobre viver à violência na Região Metropolitana do Recife. Casos de profissionais mortos têm sido mais comuns. 

 “Hoje não existe mais horário seguro”, afirma a motorista Raquel Ventura, que trabalha na região e já foi vítima de assalto durante o dia. “A gente está vulnerável o tempo todo. ”A sensação não é isolada. Um motorista de 31 anos, que preferiu não se identificar, diz que a principal ferramenta de segurança é a experiência acumulada nas ruas. “Você precisa aprender a ler o mapa. Tem lugar que parece tranquilo, mas não é. Se não souber, entra em área complicada sem perceber.”

Ele afirma que não hesita em cancelar corridas quando identifica risco. “Já aconteceu de eu chegar para pegar um passageiro e ver dois homens em atitude suspeita. Na hora, cancelei e fui embora. Isso já é normal.” O cenário de violência ajuda a explicar o comportamento cauteloso. Dados do Instituto Fogo Cruzado mostram que, apenas em 2026, nove motoristas de aplicativo foram baleados na Região Metropolitana do Recife, oito deles morreram. Considerando pouco mais de três meses do ano, isso representa, em média, um motorista atingido a tiros a cada cerca de 10 dias.

Os números ganham rosto em ca sos recentes. No dia 15 de abril, o moto rista Djalma Alves da Silva Júnior foi morto após ser baleado na cabeça nas proximidades da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), durante a madrugada. Em março, dois outros condutores também foram as sassinados em circunstâncias semelhantes: Eduardo Luiz da Cruz, de 31 anos, morto após tentar fugir de uma abordagem em Candeias; e Victor Dantolli de Fontes Souza, de 36 anos, vítima de latrocínio em Casa Forte, enquanto deixava uma passageira.

As ocorrências têm um padrão que preocupa a categoria: abordagens rápidas, geralmente nos momentos em que o carro está parado ou em baixa veloci dade. Com isso, motoristas pas saram a desenvolver uma espé cie de protocolo próprio de se gurança, baseado em observação e intuição.

Evitar becos e ruas sem saídas está entre as principais medidas  “A gente não entra porque pode ser embos cada. Se precisar sair rápido, não tem como”, explica Raquel Ventura. Outra estratégia é reduzir o tempo de exposição parado, principalmente durante embarques e desembarques. “Quando a gente fica esperando passageiro, é quando fica mais vulnerável”, diz.

O motorista de 31 anos reforça que a análise do trajeto começa antes mesmo de aceitar a corrida. “Eu olho no mapa exatamente onde é. Tem bairros grandes, com áreas muito diferentes. Se não tiver atenção, você entra em lugar perigoso achando que é tranquilo.” Ele também evita determinados locais em horários específicos. “Tem lugar que de dia eu vou, mas de noite eu não vou. À noite, o risco aumenta muito.”

Além disso, há uma mudança de postura dentro do carro. “Tem que ficar atento o tempo todo. Qualquer movimentação estranha, qualquer coisa fora do normal, já liga o alerta.” O motorista Ulisses de Andrade Santos, de 42 anos, que atua há nove anos na atividade, relata que o principal critério pa ra evitar riscos é o horário. “Tenho mais receio de rodar à noi te, principalmente de madruga da. Durante o dia, dependendo do lugar, ainda vou. Mas à noite eu evito.”

Segundo ele, há áreas que pre fere não atender, especialmen te por insegurança e falta de familiaridade. “Evito Camaragibe, partes de Jaboatão, algumas áreas de Paulista, Olinda, Cabo e São Lourenço. São locais que não conheço bem, e à noite o risco é maior.”

Ulisses conta que, ao longo dos anos, aprendeu a adaptar o comportamento. “Tem que observar muito, não ficar dando bobeira, prestar atenção no movimento da rua. Hoje a gente trabalha sempre em alerta.” A percepção de risco alterou diretamente o comportamento da categoria. Para muitos, a escolha entre aceitar ou não uma corrida passou a ser, antes de tudo, uma decisão de segurança. “Tem corrida que paga mais, mas não vale o risco”, afirma o motorista que pediu anonimato. “Prefiro rodar mais e me expor menos.”

A insegurança não se limita ao ambiente externo. Ulisses também já vivenciou situações delicadas dentro do carro. “Nem sempre é violência física. Já passei por situação de passageiro invadindo espaço, sendo inconveniente. A gente tem que saber lidar para não perder o controle.” 

Para ele, o aumento dos casos de violência funciona como um alerta constante. “A gente vê as notícias e fica mais atento ainda. Não dá para relaxar.”