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Jornal do Commercio - Data Magna: quando Pernambuco ousou pensar como país
Data Magna: quando Pernambuco ousou pensar como país
Cultura
Página 58

Data Magna: quando Pernambuco ousou pensar como país
Movimento de 1817 derrubou o governo colonial, instaurou uma república provisória e deixou um legado político que ainda marca a identidade do estado
Durante os primeiros anos do século XIX, Pernambuco deixou de obedecer à monarquia portuguesa e passou a experimentar uma república própria. A revolta iniciada no Recife derrubou a autoridade da Coroa na província e instaurou um governo independente que buscava colocar em prática ideias de liberdade política, redução de impostos e autonomia administrativa.
Embora tenha sido sufocada pela repressão militar, a Revolução Pernambucana deixou marcas profundas na história local e ajudou a consolidar uma memória política que ainda hoje alimenta o orgulho do estado.
Celebrada no feriado da Data Magna, a data lembra o momento em que a província ousou imaginar sua própria república, anos antes da independência do Brasil. Em Pernambuco, corre desde sempre o sangue de heróis.
QUANDO O SANGUE DOS HERÓIS COMEÇOU A FERVER
O cenário que levaria à revolta começou a se moldar quando a corte portuguesa decidiu cruzar o oceano Atlântico e se instalar no Rio de Janeiro, no início do século XIX.
A presença da monarquia em território brasileiro ampliou o controle sobre as províncias e elevou os tributos necessários para sustentar a estrutura da própria corte.
Para o historiador George Cabral, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e presidente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP), esse processo alimentou uma sensação crescente de exploração entre os pernambucanos.
“Desde a instalação da corte no Brasil há uma subida constante dos tributos e um controle mais intenso sobre as províncias. Era como se Lisboa tivesse chegado mais perto”, explica.
A REPÚBLICA É FILHA DE OLINDA
Naquela época, Recife se consolidava como um ponto de encontro de mercadorias, viajantes e ideias vindas de diferentes partes do mundo, como o iluminismo.
A abertura dos portos aproximou Pernambuco de mercados como Inglaterra e Estados Unidos, enquanto a seca severa agravava a crise econômica e ampliava o clima de insatisfação na província.
O impulso revolucionário, porém, não era novidade em Pernambuco, que já havia testemunhado em Olinda, em 1710, o primeiro grito republicano do Brasil.
A declaração foi feita pelo capitão-mor Bernardo Vieira de Melo, então vereador da Câmara de Olinda, durante um discurso no Senado da Câmara da cidade.
O ESTOPIM
O estopim da revolta aconteceu no quartel de artilharia do Recife, quando uma ordem de prisão contra suspeitos de conspirar contra a Coroa acabou precipitando o movimento. O capitão José de Barros Lima, conhecido como Leão Coroado, reagiu à tentativa de detenção e matou um oficial português que o confrontava, dando início à revolução.
Em pouco tempo, os insurgentes tomaram o controle do Recife e de Olinda, enquanto o governador português foi obrigado a deixar a província. Ali nascia uma república improvável para uma colônia portuguesa.
Com a administração colonial afastada, formou-se um governo provisório composto por representantes de setores considerados essenciais na sociedade da época, como comércio, agricultura, magistratura, militares e clero.
Para Cabral, essa composição refletia uma tentativa de organizar um governo mais amplo do que o modelo centralizado da monarquia portuguesa.
LIBERDADE PROCLAMADA NO NOVO GOVERNO
Uma vez no poder, os revolucionários tentaram rapidamente conquistar apoio popular. Impostos foram reduzidos, medidas foram adotadas para diminuir o preço dos alimentos e os salários dos militares foram reajustados.
Três dias após o início da revolução, foi distribuído um panfleto chamado Preciso, no qual as novas autoridades explicavam as razões do movimento e os objetivos da administração provisória. De acordo com Cabral, essa iniciativa revela uma preocupação incomum com a comunicação política naquele período.
BATALHAS CRUÉIS E REPRESSÃO
Apesar da rápida tomada do poder, o novo governo encontrou dificuldades para se consolidar. A notícia da revolução provocou uma reação imediata da monarquia portuguesa, que mobilizou tropas a partir de Salvador e do Rio de Janeiro para cercar a província. Ao mesmo tempo, navios bloquearam o porto do Recife, comprometendo o abastecimento da cidade.
“Ao mesmo tempo em que havia repressão externa, também surgia uma contra- -revolução interna de setores que perderam a confiança no movimento”, explica o historiador, referindo-se principalmente a grupos da elite agrária preocupados com as consequências políticas da revolta.
A derrota da revolução foi seguida por uma repressão severa. Centenas de pessoas foram presas e diversas lideranças acabaram sendo executadas em Salvador e no Recife.
Para Cabral, a violência das punições tinha um objetivo claro: “impressionar e amedrontar os outros para que eles não pudessem nem pensar na possibilidade de se revolucionar contra a monarquia”, afirma.
Além das execuções, milhares de pernambucanos foram recrutados à força e enviados para lutar em guerras da Coroa portuguesa no sul do continente.
PERNAMBUCO, IMORTAL, IMORTAL
Mesmo derrotada militarmente, a Revolução Pernambucana deixou marcas profundas na história política do Brasil. Foi a primeira vez que um movimento revolucionário conseguiu tomar o poder dentro da monarquia portuguesa e organizar uma república em território brasileiro.
Mais de dois séculos depois, a revolução continua presente nas bandeiras espalhadas pelo estado, na memória dos pernambucanos e no orgulho de um povo que, ainda em tempos de colônia, já ousava pensar como país. Pernambuco segue como terra de bravos guerreiros, imortal na própria essência.