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Folha de Pernambuco- A Antártica, o Recife e Cervantes
A Antártica, o Recife e Cervantes
Opinião
Página 12

A Antártica, o Recife e Cervantes
No Dom Quixote de la Mancha, em meio a uma aventura, o personagem “venerável” Montesinos afirma: “As grandes façanhas para os grandes ho mens estão guardadas” (Cap. XXIII, II Parte). Ho mens no sentido da espécie humana. O escritor Miguel de Cervantes tinha uma apurada consciência do que escrevia.
Essa inesquecível frase quixotesca foi o estímulo para que esta crônica marina levantasse âncora, como segue:
Se no passado o cavaleiro andante percorria caminhos a fim de lutar por um mundo melhor, mais justo, até parar em um lugar e depois seguir na incessante busca; no presente, o navio de investigação oceanográfica BIO Hespérides (A 33), da Armada Espanhola, navega por oceanos e mares, em busca de um futuro melhor para a vida do planeta Terra, sempre recomeçando, independentemente dos desafios a enfrentar. Moinhos, sempre vão existir.
No último mês de abril, aportou no cais do Porto da cidade do Recife, para uma escala técnica e de intercâmbio de informações, o BIO Hespérides (Tripulação: 55 pessoas – 45 homens e 10 mulheres). Está retornando da Antártica, no Polo Sul, onde, entre 2025 e 2026, cumpriu, no verão austral, a sua 30.ª missão de pesquisas e estudos em “áreas como a oceanografia, a biologia e a geologia”. O seu destino é o porto base em Cartagena, na Espanha.
É bom saber que a parada de navios no Porto do Recife não acontece por acaso. Desde os primórdios do Novo Mundo, corriam informações sobre a existência do porto natural na localida de recifense. Nos mesmos arrecifes que hoje conhecemos e admiramos, existia uma comunidade embrionária de pescadores e exploradores, e o local era ponto de passagem de caravelas e aventureiros, para tirarem proveito da região, principalmente do pau-brasil, ou seguirem para o sul do novo continente. As correntes marinhas favoreciam a navegação nesse sentido.
Sobre isso, há um fato para reflexão: o estrei to de Magalhães foi descoberto em 21 de outubro de 1520, pelo navegador português Fernão de Magalhães, a serviço da Coroa da Espanha. Magalhães tinha como um dos auxiliares o navegador espanhol Juan Sebastián Elcano. Após a sua morte, no recém-descoberto Oceano Pacífico (nas Filipinas), Elcano comandou a façanha até o final.
O italiano Antonio Pigafetta, o cronista da ex pedição, deixou um registro memorável. Nesse período, Portugal ainda não tinha iniciado a colonização do Brasil; ela só ocorreu quando o do natário Duarte Coelho chegou à “Terra do Bra sil”, em 1534, para instalar a Capitania de Pernambuco, de modo que fundou as cidades de Olinda (1535) e Recife (1537). Paralelamente, outras Capitanias foram instaladas.
Aproveitando a estadia do BIO Hespérides no Recife, foi estruturado o seminário Cooperação Antártica Entre Brasil e Espanha: um olhar para o futuro. A base foram os acordos de trabalho en tre as duas nações, suas respectivas estações e os “projetos científicos multidisciplinares”, do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR) e do Programa Antártico Espanhol, conforme o Tratado da Antártica que rege o uso do continente, considerado uma “reserva natural do mundo, em que não há soberania de ninguém e cujos fins são pacíficos e científicos”.
O evento foi organizado pelo diplomata José Miguel Lara, Conselheiro Cultural, Científico e de Cooperação da Embaixada da Espanha, no Brasil, com o apoio do Instituto Cervante. Recife, tendo à frente o diretor Luis Ángel Ma cías Amigo, e, pelo PROANTAR, o contra-almirante Robledo de Lemos Costa e Sá.
A efeméride aconteceu no dia 17 de abril, no auditório do Museu Cais do Sertão, acompanhada da exposição fotográfica: Imensidade Blanca. A condução da sessão coube ao moderador da jor nada científica, o historiador, pesquisador e fotógrafo João Paulo Santos Barbosa, da Universi dade de Brasília (UnB), com foco em ciência, equilíbrio climático e conservação ambiental, e as seguintes palestras: a do comandante do na vio BIO Hespérides, o capitão de fragata Fer nando José Moliné Juste; a do gerente do PROAN TAR, o contra-almirante da Marinha do Brasil Ro bledo de Lemos Costa e Sá; a da diretora do De partamento de Oceanos e Gestão de Custos do Ministério do Meio Ambiente do Brasil, a Profª. Dra. Ana Paula Prates; e a do coordenador do Pro jeto MEPHYSTO, o Prof. Dr. Moacyr Araújo, vice-reitor da Universidade Federal de Pernam buco (UFPE).
As valorosas informações especializadas foram no nível de esclarecimentos, de alertas, de projeções e de convocação global aos cuidados com a realidade e o futuro do planeta. Algumas delas impactantes. Em resumo:
. A Terra não vive sem a Antártica. A sua con servação ambiental é básica e indispensável ao futuro da humanidade.
. Na Antártica, toda atividade – científica, lo gística ou turística – exige avaliação prévia de impacto ambiental.
. Cientificamente, há uma relação direta entre o aquecimento global e os seus efeitos na Antártica, com a intensidade dos ciclones na região sul do Brasil, e com as últimas e severas enchentes no estado do Rio Grande do Sul.
Cerca de 8% de todo o petróleo mundial é usado para produzir plásticos – e as estimativas indicam que, até 2050, esse número subirá para 20%.
. Mais de 18 bilhões de quilos de plásticos des cartados em áreas costeiras acabam nos oceanos, todos os anos.
. Se as coisas continuarem como estão, dentro de 30 anos, os oceanos do mundo conterão mais plásticos (em peso) do que peixes.
. A Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) é central em missões científicas brasileiras na Antártica, com foco em pesquisar a costa do continente gelado.
Atenciosos leitores e leitoras, cientes de que é pelos oceanos e mares que, desde a antigui dade, circula a maior parte das riquezas e o de senvolvimento do mundo, não percamos a esperança na conquista de avanços no equilíbrio ambiental do nosso planeta. Eles também são fontes de alimentos e eternos cenários de lazer e inspiração.
Num olhar lúdico para a água salgada que reflete o espaço, comove o antigo aforismo do ge neral e político romano Pompeu (106-48 a.C.): “Navegar é preciso, viver não é preciso”.
Observem como, na atmosfera misteriosa dessa força da natureza que cobre a maior par te da Terra, a literatura soube elevar a visão da condição humana por meio de clássicos: Os Lu síadas, de Luís de Camões (1572); Moby Dick (1851), de Herman Melville; 20.000 Léguas Sub marinas (1870), de Júlio Verne; e O Velho e o Mar (1952), de Ernest Hemingway. Do lado brasileiro, sejamos justos com o brilhante e solitário Cem Dias entre o Céu e o Mar (1985), de Amyr Klink. Sinto-me bem feliz em escrever sobre este as sunto. Foi enriquecedor o que eu vi e escutei, com propriedade, sobre a Antártica, dos interlocutores do seminário. Além de nutrir simpatia pela causa ambiental, fui portuário, durante um período de estágio no Porto do Recife, quan do era estudante da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).