25.07.13

Impacto da Copa de 2014 é tema de mesa-redonda com antropólogos


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Por Allane Silveira


A Copa e suas implicações na reordenação do espaço e nas economias urbanas foi o tema da mesa-redonda proposta pela Associação Brasileira de Antropologia (ABA) na tarde de ontem (24), no anfiteatro José Francisco Ribeiro, no Centro de Ciências Sociais Aplicadas (CCSA), durante a 65ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Participaram da mesa Carmen Rial, presidente da ABA; Russel Parry Scott, professor dos Programas de Pós-Graduação em Antropologia e Sociologia da UFPE; Arlei Sander Dalmo, professor do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); e Eduardo Araripe, antropólogo e relator do Grupo Técnico Arena da Copa de 2014 da Secretaria Extraordinária para Segurança de Grandes Eventos do Governo Federal.

Foto: Passarinho
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Carmen Rial abriu o debate introduzindo a plateia sobre a importância de se discutir o futebol como um fenômeno que pode antecipar algumas dinâmicas sociais, a exemplo do que aconteceu com as manifestações iniciadas em junho nas ruas do Brasil. Carmen e Arlei Sander associaram alguns elementos presentes nos protestos, que demonstraram uma série de insatisfações com a política e os serviços públicos brasileiros, a algumas características do universo do futebol, como a lembrança em alguns cartazes do bordão “Saúde e Educação Padrão Fifa”. “O atual momento político está demostrando o que a gente já previa nas discussões que ocorriam entre os pesquisadores que se debruçavam sobre esse tema. A exclusão e a gentrificação causadas pelos megaeventos esportivos ultrapassam o tema futebol.”
 
Na sua apresentação, o professor Arlei Sander falou do que chamou de legado intangível da Copa do Mundo de 2014. Esse legado seria justamente o debate amplo que surgiu no seio da sociedade sobre o uso do dinheiro público com as obras destinadas ao megaevento. Arlei não questionou a legitimidade dos gastos, mas focou sua análise em torno das tensões existentes sobre o que a sociedade considera de interesse público ou não em relação aos gastos com a Copa, o que ele chamou de “economia moral”. “Os protestos demonstraram uma clara reinvindicação de um melhor uso daquele dinheiro, seja em saúde, seja em educação. Enquanto o governo chama o dinheiro aplicado nas obras de ‘investimentos’, os movimentos sociais vão chamar de ‘gastos’. Portanto, podemos verificar duas produções discursivas diferentes tensionando esse debate”, explicou.
 
Eduardo Araripe, em sua fala, traçou um histórico das copas do mundo, levantando a evolução quantitativa dos números do evento quanto ao público presente nos estádios e suas cifras, além de mostrar algumas curiosidades. “A Copa movimenta em torno de 300 bilhões de dólares e envolve 134 países (considerada a última copa). O futebol é o único esporte que consegue tamanha mobilização”, comentou, lembrando o caráter de oportunidade do evento. O antropólogo também não deixou de descrever as responsabilidades dos governos ao se comprometerem em ser sedes do evento e explicou alguns pontos da Lei Geral da Copa, que funciona como um contrato de negócio, fechado entre a Fifa e o país sede, que não pode ser rompido. “Existe uma premissa da Fifa que é a de que a rotina dos moradores das cidades sedes dos jogos da Copa não deve ser alterada. Mas a gente está vendo que na prática muitas vezes esse princípio não é seguido”, observa Araripe.
 

Parry Scott, o terceiro palestrante, priorizou em sua fala os impactos sociais das obras da Copa nas cidades de Camaragibe e São Lourenço da Mata. O pesquisador constatou que se trata de localidades onde se tentam instalar modelos de desenvolvimento que não priorizam as suas populações locais e onde se aplicam um discurso de inclusão que vai efetivar uma prática de exclusão. Exemplos não faltam, de acordo com Parry Scott: remoções da população original para dar espaço a novas vias de acesso ao estádio, inibição do comércio local, suplantação das manifestações da cultura local em favor de mega atrações com artistas de fora e invisibilidade das articulações políticas por trás da organização das obras. “Não se tem notícia das populações removidas, das indenizações das pessoas atingidas diretamente, nem das medidas mitigatórias implementadas junto a essas populações”, observou. 

 


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