PROFISSÃO // Estudiosos do mar


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24.05.2010

Diário de Pernambuco – Guia de Profissões

Estudiosos do mar
Oceanógrafos traçam em terras muito firmes o sucesso da profissão. Graduação é recente e exige conhecimento em áreas diferenciadas para encarar uma rotina cheia de encantos e desafios. Carreira está em alta
Raissa Nascimento
// Especial para o Diario
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Se você acha que um oceanógrafo vive mais tempo na água do que na terra, sabe pouco sobre a profissão. O profissional dedica horas de estudo em terra firme, analisando o ambiente marinho. Tudo para preservar o ecossistema contra a degradação humana. Também pesquisa as curiosidades sobre a vida no ambiente aquático.

O curso de oceanografia no país é oferecido em apenas 10 universidades. Para facilitar o acesso dos estudantes à graduação, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) adotou o Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Os feras se submeterão ao Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) e com a nota da prova poderão se inscrever no Sisu. A mudança passará a valer a partir deste ano. A ideia é facilitar a vida de estudantes de todo o país para que possam concorrem às 25 vagas ofertadas.

Segundo a coordenadora do curso da UFPE, Mônica Costa, os alunos continuarão tendo aulas em período integral e devem estar dispostos a se dedicar aoestudo, principalmente às disciplinas exatas. "A oceanografia é uma ciência que estuda o ecossistema marinho utilizando os conhecimentos da física, química, biologia e geologia", explica a coordenadora.
Disciplinas como cálculo, estatística e geometria analítica são estudadas ao longo do curso, que tem duração de 10 períodos ou cinco anos. A interdisciplinaridade é outro ponto bastante importante no curso de oceanografia. "O aluno ganha um conhecimento geral para poder aplicar na área em que for atuar, dessa maneira, formamos profissionais capacitados para atuar em qualquer setor da oceanografia", declara Mônica.

O oceanógrafo pode atuar com a física, a química, a biologia e a geologia. O profissional escolhe de acordo com a própria aptidão e interesse de estudo. "Cada segmento da oceanografia tem um aspecto peculiar, porém, eles são interligados, tendo uma interação constante", comenta Mônica.

O aluno Ted Lincoln, de 38 anos, está no 3º período do curso de oceanografia e a cada aula se apaixona mais pelo curso. "É uma área encantadora. Cada setor trabalha em conjunto com os demais ramos, visando apresentar soluções para os problemas ambientais marinhos", conta Ted.

De acordo com Mônica Costa, nos projetos práticos o mais focado é o local em que ocorre a pesquisa. "Analisamos todo o ecossistema do lugar. Iniciamos em 2005 uma pesquisa no Rio Goiana (que faz fronteira entre Pernambuco e Paraíba) e abordamos toda a ecologia da região como também a ação humana dentro daquele ecossistema", exemplifica ela.

Para se dar bem na área é preciso que o aluno tenha domínio de mais de um idioma, pois muitos livros não possuem tradução para o português. "Saber escrever bem faz a diferença na hora de publicar artigos científicos e ter facilidade em trabalhar com programas de bancos de dados e planilhas eletrônicas contribui no trabalho de documentar as informações colhidas nas amostragens", ressalta Mônica.

Saiba mais em:

www.ufpe.br/tropicaloceanography
www.aoceano.org.br


Paixão para encarar os segredos marinhos

Para decidir a carreira que se quer dedicar toda uma vida é imprescindível ter paixão pela área e vontade de aprender cada vez mais. Pensando assim, a professora Beatrice Padovani Ferreira escolheu trabalhar como pesquisadora do ecossistema marinho.
Ela descobriu a vocação depois de assistir ao documentário O mundo silencioso, de Jacques Costeau. "Quando vi o que havia no fundo do mar tive certeza de que eu queria trabalhar pesquisando a vida marinha", recorda.

O primeiro passo foi cursar biologia marinha, depois realizou o mestrado em oceanografia e logo em seguida doutorado sobre os corais na Austrália. "O mar sempre foi o meu objeto de estudo. Tive a oportunidade de estudar a grande muralha de recifes de corais da Austrália e fiquei deslumbrada. É fascinante poder mergulhar e acompanhar a imensa diversidade de vida nestes ambientes marinhos", relata Beatrice.

O trabalho de pesquisa acadêmica desenvolvido nos corais repercute para a vida de toda a sociedade. "No mergulho estudamos a saúde do ambiente de corais, desta maneira, informamos as mudanças que estão acontecendo e como vão interferir na vida humana", explica Beatrice.

O mergulho é uma atividade frequente na pesquisa acadêmica. Existem vários instrumentos aquáticos que facilitam o trabalho no fundo do mar. "Como a área a ser pesquisada é imensa, dividimos o local que será a nossa amostragem com a trena e contamos a quantidade de diversidade de animais que encontramos no lugar, como peixes, ouriços, polvos, carangueijos, dentre outros. Usamos a prancheta subaquática e o lápis grafite para descrever o que encontramos lá em baixo", exemplifica Beatrice.

Atualmente, a professora Beatrice trabalha como coordenadora do Programa Nacional de Monitoramento dos Recifes do Coral Brasileiro, que compreende as áreas desde o Rio Grande do Sul até o sul da Bahia. "O monitoramento acontece ao longo dos anos. Pelo menos uma vez avaliamos o impacto ambiental que o local está recebendo com as ações humanas, como a pesca. O trabalho é desenvolvido por equipes locais compostas por mergulhadores, pesquisadores e voluntários", descreve ela, acrescentando que os recifes de corais têm uma importante diversidade marinha de seres viventes, tanto vertebrados como invertebrados. Os pesquisadores comparam a diversidade de espécies com as florestas tropicais".

Uma das espécies que vive nos corais e que cativou a professora Beatrice foi o peixe mero, que em tupi-guarani significa rei das pedras. "Estudamos todas as fases do peixe mero e identificamos que ele está em risco de extinção, pois ele demora muitos anos para se reproduzir. Então, me uni a outros pesquisadores e fundamos o Projeto Meros do Brasil", informa Beatrice. O único peixe que tem um documento oficial proibindo a sua pesca. Para quem quer ser reconhecido na área ela diz que o segredo é pensar sempre no papel social do pesquisador e oceanógrafo.

Breve perfil

* Graduação em biologia marinha;
* Mestrado em oceanografia;
* Doutorado em ambientes recifas.

Conheça mais:

www.merosdobrasil.org
www.iucn.org


Muita terra firme até o mar

Dedicação, perseverança e humildade são fundamentais para o sucesso em qualquer área em que o profissional for atuar. Roberto Wahrlich sabe bem o que significam essas atitudes. Isso porque até chegar ao posto de presidente da Associação Brasileira de Oceanografia (Aoceano), ele teve uma longa rotina a encarar. Hoje, Roberto encanta a todos que o conhece. "Depois de formado, passei quatro anos vendendo sanduíches na praia. Até conseguir o meu primeiro emprego", recorda ele.

A busca pelo aprimoramento marcou a vida deste profissional, que nunca parou de estudar. "A oceanografia é uma área multidisciplinar. Quanto mais amplo for o conhecimento do profissional, melhor será o trabalho", ensina o presidente. Ele ingressou na Aoceano com o objetivo de fortalecer a classe, que na época lutava pela regulamentação da profissão. A vitória veio no ano de 2008, com a Lei 11.760. Nesta entrevista, ele aborda o universo da oceanografia, as oportunidades e os novos desafios da área.

Como você definiria a profissão?

Em resumo, é o amor ao mar. No dia a dia da profissão o desafio é querer compreender o ecossistema marinho e como podemos aproveitar os seus benefícios sem destruí-lo.

Quais são as principais habilidades necessárias para ser oceanógrafo?

O profissional tem de ter a capacidade de unir a teoria com a prática para abordar questões que envolvem desenvolvimento da sociedade com a manutenção da natureza. A multidisciplinaridade também é fundamental, pois a oceanografia trabalha com os ecossistemas aquáticos enfatizando o meio marinho e para isso se faz necessário ter conhecimentos das áreas de biologia, geologia, física e química. Também um bom domínio da escrita para a publicação de artigos científicos.

E o mercado, está em expansão?

Sim, com toda certeza. Sou professor do último ano do curso de oceanografia da Univali (Universidade do Vale do Itajaí) e a maioria dos meus alunos tem se formado com boas opções de trabalho.

Quais as áreas de atuação?

Existem oportunidades tantono setor público como na iniciativa privada. Como exemplo de contratação na administração pública: o Ministério da Pesca e Aquicultura, a Secretaria Especial de Portos e o Ministério do Meio Ambiente. O setor privado apresenta um elevado crescimento na admissão de oceanógrafos na atividade pretolífera, gerando trabalho tanto na área ambiental como tecnológica e com as empresas de consultoria ambiental que estão contratando bastante.

Qual a média salarial para quem está começando?

Em torno de R$ 1.500.


Uma só profissão, várias áreas

Química no trabalho
Já parou para pensar sobre a cor do mar, o gosto da água? Para isso tem a oceanografia química, de onde saem respostas curiosas graças aos estudos dos processos químicos no ecossistema marinho. A oceanografia química estuda duas áreas interligadas: os fenômenos naturais e a poluição marinha.

Segundo a professora da UFPE, Jacqueline Silva Cavalcanti, a área da oceanografia química estuda como as ações humanas interferem no processo natural do mar. "Analisamos como a humanidade está interferindo na vida do oceano e quais consequências virão para a sociedade", comenta Jacqueline.

Física na rotina
Imagine poder transformar os movimentos das ondas do mar em uma equação matemática? Pois bem, essa é uma atividade do oceanógrafo físico. O profissional pode atuar estudando a temperatura superficial do oceano, a quantidade de salinidade nas águas, a variação no nível do mar, dentre outros aspectos.

O professor da UFPE, Antonio Fernando Harter Fetter Filho, veio dos Estados Unidos para ensinar no Brasil a oceanogreafia física. "Amo o meu trabalho e isso faz toda a diferença. Me realizo ao transformar os fenômenos do mar em uma equação matemática", explica Antonio.

A oceanografia trabalha com as ciências exatas e para aqueles que não se dão bem com os cálculos, o professor Antonio dá uma dica super especial: "Procure resolver as suas dificuldades na graduação ou até mesmo depois numa pós. Eu tinha muitos problemas com matemática, então resolvi fazer um aperfeiçoamento dentro do meu doutorado na área em que eu precisava melhorar", afirma.

Geologia e seus desafios
Imagine poder navegar pelos oceanos antigos? Desbravando os mistérios que cercam o fundo do mar? Essas atividades são do oceanógrafo geológico que estuda a paleoceanografia.

Segundo a professora de oceanografia geológica da UFPE, Núbia Chaves Guerra, a paleoceanografia é uma das áreas mais fascinantes. "No estudo dos oceanos antigos encontramos fósseis sedimentarizados e analisamos as rochas calcárias. Aqui em Pernambuco temos a bacia sedimentar Pernambuco-Paraíba que já foi mar e atualmente pesquisamos no local", explica a professora.

O profissional também estuda as jazidas de óleo (como a camada do pré-sal), as jazidas de minerais (como os nódulos de manganês e calcários) e a morfologia submarina (como os vulcões e montes submarinos). Assim explica a professora Núbia: "A área é bastante vasta, pesquisamos as ondas, os tsunamis que são os abalos sísmicos no oceano e as ilhas vulcânicas são apenas um exemplo das opções de trabalho".

Biologia do mar
A vida dentro do oceano é algo mágico e sedutor. Quem decidi seguir carreira como oceanógrafo biológico vai trabalhar estudando a vida dentro do ecossistema marinho. Foi essa escolha que o professor da UFPE, Mário Barletta, fez.

"Eu faço o que melhor sei fazer, por isso decidi pela oceanografia biológica", relata o professor. Mário trabalha num projeto em que estuda os mangues. "Analiso a presença dos animais neste ambiente, que é considerado o berçário de muitas espécies marinhas e como as ações humanas estão interferindo neste cenário natural", ressalta Mário.

Saiba mais

O Instituto Oceanógrafo da Universidade de São Paulo (IOUSP) apresenta trabalhos de pesquisa e extensão nas quatro áreas da oceanografia. Os pesquisadores têm duas bases de pesquisa para coletar materiais: Ubatuba e Cananéia, além do navio Oceanógrafico Professor W. Besnard que contém 50m de comprimento.

Entre no site: www.io.usp.br


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