13.06.05

Materiais cirúrgicos são produzidos a partir de reação química com o melaço da cana-de-açúcar


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Por Isabelle Barros, da Ascom/UFPE
 
Baixar o valor de materiais cirúrgicos e entrar na disputa de mercado pela descoberta de novos materiais. São esses os resultados esperados pelo Grupo de Pesquisas Biopolímero de Cana-de-Açúcar, uma parceria entre as Universidades Federal (UFPE) e Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). As duas instituições estão desenvolvendo uma pesquisa pioneira com o objetivo de descobrir novos usos para o biopolímero, aglomerado de moléculas formado a partir de uma reação química entre uma bactéria e o melaço de cana-de-açúcar.
 
De acordo com o professor José Lamartine de Aguiar, coordenador do grupo, o biopolímero pode ser transformado em fios de sutura, membranas para curativos e telas para correção de defeitos em paredes de órgãos. “Também obtivemos um gel para modelagem, com uso em cirurgias plásticas, válvulas para evitar refluxos e outros usos na cirurgia geral", explica.
 
Para chegar a essa fase, os estudos com o biopolímero começaram em 1990, quando o engenheiro químico e professor da Rural Francisco Dutra percebeu que uma bactéria nociva à cana-de-açúcar, quando posta em contato com o melaço, reagia e formava uma espécie de tecido. A bactéria foi isolada e a composição do polímero, analisada, despertando pesquisadores para as possibilidades de uso desse material nas áreas de Saúde, Física, Química Industrial e Farmacologia.

Dois anos depois, foi criado o grupo de pesquisas biopolímero, que começou a produzir biomembranas na Estação Experimental de Cana-de-Açúcar de Carpina, ligada à UFRPE. "Houve a curiosidade de cada pesquisador em tentar saber o que era aquilo. Com o passar do tempo, estabelecemos um processo de produção, depois atuamos no Hospital Veterinário e em seguida começamos a trabalhar com o Departamento de Cirurgia da UFPE", explica o professor Dutra.

O grupo foi crescendo e hoje há membros das áreas de Engenharia Química, Medicina, Farmacologia, Biologia Molecular, Patologia, além de alunos de graduação, de iniciação científica e do Programa de Pós-Graduação em Cirurgia.
 
Feita a reação química necessária para a obtenção do biopolímero, os cientistas passaram para a etapa de otimização da produção, em que metade do melaço utilizado é transformada em membrana bruta. Em seguida, o material foi tratado para ser aplicado em seres vivos. Depois, foram feitos testes em laboratório para se verificar a toxicidade e a reação das células ao produto. “Como os resultados foram muito bons, passamos para os testes com animais, também muito satisfatórios", completa Lamartine.
 
O próximo passo da pesquisa é a instalação de uma biofábrica em Carpina, para a produção em escala do biopolímero. Para que ela seja viabilizada, a UFPE e a UFRPE, além do Laboratório Farmacêutico do Estado (Lafepe), firmaram um convênio no dia 2 deste mês. As duas universidades vão tratar o projeto de forma estratégica, devido à transformação de um produto de baixo valor agregado, como o melaço de cana, em outro de alto valor, como material para uso médico e cirúrgico.
 
Já foram encaminhados três pedidos de patente para resguardar os direitos das duas instituições. "Como nós esperamos um mercado muito grande, até mesmo mundial, nós podemos potencializar a produção da biomembrana. Não dá para dizer agora qual seria o tamanho disso, mas com certeza a região tem uma grande quantidade de matéria-prima e, o que é melhor, a baixo custo. Ainda há muitas possibilidades para o biopolímero", acredita Lamartine. A pesquisa tem o apoio do Ministério de Ciência e Tecnologia, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (Facepe).

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